Escolha ideológica do reitor da UFRGS e cinamomos

Escolha ideológica do reitor da UFRGS e cinamomos

Bolsonarismo pesou mais do que tudo

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      A escolha do novo reitor da UFRGS foi ideológica. O bolsonarismo prevaleceu. Alguém dirá que toda escolha de reitor é ideológica. Neste caso, a ideologia assume a qualidade de conveniência. Preferiu-se o terceiro colocado, de acordo com as regras do jogo, ao primeiro. Por que mesmo? O deputado federal Bibo Nunes bancou o nome do escolhido junto ao presidente da República. Queria ver a UFRGS gerida pela direita. A escolha pela comunidade acadêmica tem pesos. O voto dos estudantes não pesa o mesmo que o voto de funcionários e professores. Na França, cada parte da comunidade elege representantes para os conselhos gestores das universidades e estes elegem o presidente da casa. Simples assim.

      Durante muito tempo criticou-se a ideologização de tudo. Ideologizar era um insulto terrível. O ideal seria fazer escolhas técnicas ou justificadas racionalmente. Não é o caso agora. Isso não quer dizer que o ungido não possa vir a ser um bom administrador. Talvez outro no lugar dele, não tendo sido o mais votado, preferisse sair do jogo na medida em que aspirou a ser o vencedor no voto. Há quem defenda também o voto paritário, o que, na visão dos críticos dessa fórmula, desequilibraria o jogo em favor dos estudantes, muito mais numerosos, gerando outra disparidade. O presidente pode legalmente, como fez, preferir o menos votado. Só que isso tem consequências. Tem também uma predefinição ideológica. A UFRGS é considerada uma das melhores instituições de ensino e pesquisa do país. A escolha do mais votado, ao longo das décadas, não lhe fez mal algum desse ponto de vista.

      Aqueles que criticavam ontem escolhas por ideologia, agora aceitam o mesmo princípio, pelo lado oposto, tranquilamente. Ideologia só é ruim quando é do outro. Mesmo não sendo uma eleição, mas consulta para composição de uma lista tríplice, nada impede os candidatos de convencer seus eleitores, tanto é assim que se prestam ao pleito. O vencedor sabe que poderá ser preterido. Só não espera que isso aconteça. Afinal, qual a razão para concordar com a consulta, como faz o governo federal, e não confirmar o seu resultado?  No caso em pauta, a resposta é cristalina: ideologia. Sabe-se que a palavra ideologia assume várias definições: conjunto de valores e crenças, ocultação da realidade, dissimulação de relações de dominação, compartilhamento de “ficções” como realidades objetivas, mentira.

      Por ideologia, o menos votado torna-se o melhor por compartilhar com o “grande eleitor” uma visão de mundo. Já são 14 reitores nomeados por Jair Bolsonaro sem que tenham vencido nas consultas internas. No caso da UFRGS, conforme a matemática e as etapas do processo de escolha, o primeiro colocado teve 45 votos, a segunda, 29, e o terceiro, esquálidos 3. Pode-se, portanto, obter mais com muito menos. Tudo depende dos apoios que se tem. A dinâmica de pesos ganhou um novo componente: os votos de deputados federais como Bibo Nunes e Sanderson. Esses pesaram toneladas e viraram o jogo nos acréscimos. Resta o argumento de que os eleitores também votaram por ideologia. O problema desse raciocínio é que pode servir para cancelar votações, utopia embalada pela extrema-direita.

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Cinamomos

 

      Há árvores com muito destaque na arte: cerejeiras, figueiras, jaqueiras, pessegueiros, ipês, jacarandás, mangueiras, enfim. A árvore da minha infância foi o cinamomo. Muito comum na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, o cinamomo dá sombra fresca e umas bolinhas para as quais nunca encontrei utilidade, salvo a de munição contra meus amigos. Leio que o cinamomo é originário da Ásia e que tem um bonito nome científico: Melia azedarach. Até me arrepia. Mais impressionantes para mim são os seus tantos nomes populares que me eram desconhecidos: árvore-santa, bombal, bombolo-de-portugal, cedro-do-ceilão, conteira, jasmim-azul, jasmim-de-cachorro, jasmim-de-soldado, jasmim-soldado, lilás-da-índia, lilás-das-antilhas, lilás-do-cabo, lírio-da-índia, margosa, mélia, nimbo, niumbó, paraíso, sicómoro-bastardo, sinamão, árvore-de-jonny, tenente-e-intendente, para-raio, amargoseira.

      Chamar cinamomo de jasmim me deixa perplexo. Por que jasmim-de-cachorro? Por que jasmim-azul? Por que jasmim-soldado? Terá algum contrabando nessa lista disponível na internet? Como é rica a capacidade humana de nomear as coisas. À sombra de cinamomos eu tive meus primeiros sonhos de amor e imaginei meus primeiros poemas. À sombra de cinamomos eu li Flaubert, Balzac, Baudelaire, Rimbaud Machado de Assis, Cyro Martins e tantos outros escritores que passaram a dominar o meu imaginário juvenil. A sombra dos eucaliptos era triste e fria. Ciprestes eram fúnebres e esbeltos. Cinamomos, de madeira avermelhada, exalavam suavidade no verão e indiferença no inverno.

      Foi à sombra de um cinamomo bem copado, deitado sobre o carnal de um pelego, dentro de uma carreta de boi, que, em 1978, aos 16 anos de idade, li, que eu me lembre, pela primeira vez “Uma temporada no inferno”, de um poeta tão juvenil quanto eu era na época, o genial Jean-Arthur. Entendi muito pouco. Guardei pedaços salpicados: “Ir para onde? Para o combate? Sou fraco! Os outros avançam. Os equipamentos, as armas... o tempo! (...) “Há um relógio que não toca” (...) “Céus cinzentos de cristal” (...) “Quando acordei, era meio-dia” (...) “As vozes instrutivas exiladas” (...) “O mar da vigília, tal como os seios da Amélia” (...) “É tão simples assim como uma frase musical”.

      Quando quis ter o poder de nomear, dei nomes aos cinamomos que nos cercavam: árvore do frescor, pé de sombra, árvore das folhas suaves, árvore do cabo, pé de sesta, amigo silencioso do vento. Eu inventava sem dar bola para o sentido. Vez ou outra, falava assim:

– Esqueci o livro embaixo do pé de sesta.

      Um dia, quando me refrescava à sombra de um “fole da meia tarde”, nome que dava a um dos meus cinamomos preferidos pela sua altivez e generosos galhos onde eu me empoleirava, ouvi meu pai dizer:

– Homem é como árvore. Cria raízes.

      Se eu fosse árvore, podia ser cinamomo. Daria sombra fresca, receberia crianças e ninhos de joão-de-barro em meus galhos, viveria na campanha, teria muitos nomes e aceitaria os carinhos do vento em tempos sombrios e sem esperanças.  A minha utilidade poderia ser até pequena, mas talvez me chamassem de árvore dos meninos felizes. Seria a mais alta glória da minha vida e talvez o meu descanso.

 


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