Eu sabia que não teria Gre-Nal
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Eu sabia que não teria Gre-Nal

Publiquei no CP uma crônica de previsão em agosto

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Sem fim

 

      Escrevi esta ficção científica antes dos jogos desta semana. Não duvido, por viver num mundo de especulações totais, que Inter e Grêmio façam um pacto para não se encontrar na final da Copa do Brasil ou na semifinal da Libertadores da América. Comentei isso com o Hiltor Mombach, que é o melhor colunista diário de futebol do país. No meu delírio, cada lado aceita não ganhar pelo medo de perder logo para o principal rival. Quem perder, será zoado pelos próximos cem anos. Serão Cem anos de zoação e flauta. Melhor não correr o risco. O Rio Grande do Sul não sobreviveria. O problema é como chegar a um acordo. Disputar o título da Copa do Brasil compensaria não tentar ganhar a Libertadores? Na minha ficção, o Grêmio, que tem mais Libertadores e muito mais Copas do Brasil, propõe que o Inter se arrisque na competição nacional. O leitor astuto percebe o erro do raciocínio. O pacto só poderia funcionar com os dois, para evitar o encontro, abrindo mão de qualquer título. Ambos cumpririam? Quem sabe.

      Não cumprir, ou seja, não resistir à tentação de ganhar seria uma desonra, o descumprimento da palavra. Outra possibilidade é que, em caso de confronto, os jogos, tanto na Copa do Brasil quanto na Libertadores, acabem nos pênaltis. Imagino uma cena de realismo fantástico. Na primeira série, cada time erra um pênalti. Começam as cobranças alternadas. Ninguém mais erra. Passa-se uma hora. Nenhum erro. Passa-se a noite toda. Ninguém erra. Não sei o que regulamento prevê. Nem quero saber. As cobranças prosseguem. O Inter bate primeiro. Às cinco da manhã, o colorado erra. O Grêmio bate e erra também. Durante uma hora, os dois erram todas as cobranças. O árbitro interrompe o jogo para que todos possam dormir. Passam três meses. Todas as quartas-feiras, os times entram em campo para continuar a disputa. Certos dias, todos erram. Em outros, todos acertam.

      Enquanto isso, especialistas e organizadores discutem uma saída. Há quem proponha um novo jogo. Ou a melhor de cinco ou sete jogos. Também se aventa a possibilidade de decidir na moedinha. Ou no número de cartões amarelos e vermelhos. Ou no jogo do osso. Brechas no regulamento permitem todas as interpretações possíveis. Passam-se dez anos e nenhuma solução é encontrada. Dividir o título não agrada os clubes. A Libertadores fica sem final, pois não se consegue definir um dos finalistas. O fantástico é que nas duas competições a situação se repete. As decisões em tiros livres não acabam. A milésima cobrança na Libertadores é acompanhada pelo planeta inteiro. Volta e meia, especula-se que um clube vai desistir. Mas qual?

      D’Alessandro se aposenta. Contratos expiram. A solução surge por aí. Como não é possível inscrever novos atletas, chega o dia em que não há mais quem cobre os tiros livres. Melhor conferir as idades dos jogadores e os contratos para calcular quem ficaria primeiro sem jogadores. Em se tratado de Gre-Nal dessa envergadura, todo cuidado é pouco e tudo pode acontecer. Até o último jogador caminhar para a batida e não ter mais goleiro para defender. Neste caso, bastante provável, a cobrança seria autorizada? Esta projeção dá ideia de como ficaremos nos próximos dias.

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Gre-Nal apavorava. O inconsciente dos clubes de um jeito de separá-lo.