Fake News da República Velha
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Fake News da República Velha

O Brasil sempre usou notícias falsas em eleições

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Estamos fadados a repetir velhas histórias com novas tecnologias. As fakenews são antigas notícias. Em 9 de outubro de 1921, no ambiente polarizado da campanha eleitoral à presidência da República, o jornal Correio da Manhã publicou na sua capa o que parecia ser uma carta de Arthur Bernardes, presidente (governador) de Minas Gerais ao senador Raul Soares. As Forças Armadas eram enxovalhadas. A linguagem chula antecipava a de certo capitão mitificado pelo politicamente incorreto.

      A primeira carta rotulava o marechal Hermes da Fonseca, ex-presidente da República, de “sargentão sem compostura”. Era um tempo conturbado e de posturas morais rigorosas. Hermes da Fonseca tivera sua candidatura à presidência lançada por oficiais num regabofe que foi rotulado de orgia. Se o termo ainda choca, na época soava como falar em defecar, com palavra menos decorosa, portando a faixa presidencial. Os militares eram tratados sem mimimi: “Essa canalha precisa de uma reprimenda para entrar na disciplina”. A nação ardeu de ódio e furor.

      O presidente da República, Epitácio Pessoa, deveria receber conselhos: “Veja se o Epitácio mostra sua apregoada energia, punindo severamente esses ousados, prendendo os que saíram da disciplina e removendo para bem longe esses generais anarquizadores. Se o Epitácio, com medo, não atender, use de diplomacia, que depois do meu reconhecimento ajustaremos contas. A situação não admite contemporizações, os que foram venais, que é a quase totalidade, compre-os com todos os seus bordados e galões”. As chamas elevaram-se.

      O Correio da Manhã deu o pontapé inicial. Os demais jornais entraram no jogo como se dessem sequência a um Intercept de papel. A grande discussão era sobre a autenticidade dos documentos. Uma comissão formada por militares atestou que uma das cartas examinadas era autêntica: “A comissão foi levada a concluir, embora com o mais profundo pesar, pela autenticidade da carta em exame, porque ela resistiu a todas as provas, realizadas com imparcialidade e retidão, para se descobrirem os germes da sua alegada falsidade”. O material foi levado para perícia até na Europa. Distantes da confusão, os peritos europeus afirmaram que elas eram tão verdadeiras quanto um Napoleão de hospício. Esta observação é fictícia, mas esse tipo de linguagem era verdadeiro naquele tempo. Falsificações eram moda então. O que mais se falsificava era o resultado eleitoral. Mortos votavam quase sempre.

      Oldemar Lacerda e Jacinto Guimarães confessaram, depois das eleições, que haviam falsificado as cartas. Queriam barrar o caminho a Arthur Bernardes e eleger Hermes da Fonseca. Conspirações eram práticas, não teorias. Bernardes, apesar dos solavancos, ganhou e levou. Muita gente continuou sustentando que as cartas eram verdadeiras e que os réus confessos haviam sido comprados para assumir a autoria das missivas. Nilo Peçanha, vencido, não aceitou o resultado. Nem os militares. Bernardes governou sob Estado de Sítio, acossado por rebeliões fardadas. Sessenta candidatos receberam votos para presidente e 133 para vice-presidente na eleição das cartas falsas. Que tempos!