Faltam palavras

Faltam palavras

O silêncio na tragédia

publicidade

      Olho os números de pandemia e sinto um cansaço extremo. É a fadiga da falta de palavras novas para expressar uma tristeza velha. Somente oito países ainda aceitam brasileiros sem qualquer restrição: México, Afeganistão, República Centro Africana, Albânia, Costa Rica, Nauru e Tonga. Não julgo esses países. Conheço o México. Cultura espetacular. Olhos nos olhos do espelho e sinto não ser capaz de expressar a melancolia que me rói quando penso que muitas mortes poderiam ter sido evitadas. Eu queria me indignar mais. Com que termos? Desejava saber consolar. Com que fórmulas? Pretendia transmitir alguma confiança. Com que verbos? Talvez seja criticado por essa falta de positividade, por esse ar de preocupação persistente.

      No passado, gritar era uma forma de comunicação. Hoje, quem ouve? O grito tornou-se indigno. Caminho um pouco, protegido por uma máscara N95, e vejo cada vez mais rostos descobertos e até sorrisos irônicos, como se o outro, na sua serenidade, dissesse: quem é esse maluco com essa coisa toda na cara? Leio que pessoas morrem por nebulização de hidroxicloroquina. Eu amaria ter palavras para expor minha dúvida: por que tantos cientistas rejeitariam no mundo algo capaz de curar, de salvar vidas, de bloquear a ação do vírus? Confesso que essa questão me persegue. Não encontro respostas, salvo uma, que não convence o outro lado: rejeitam por não ser eficaz. Apenas isso.

      Fico sabendo que para u  estudo publicado na revista “Science” o governo brasileiro seria o maior culpado pelos erros cometidos no enfrentamento à pandemia. Será mais um estudo ideologizado? Uma conspiração? Afinal, são dez cientistas brasileiros e americanos sob a coordenação da demógrafa Márcia Castro, professora da Universidade Harvard. Antes da pandemia, citar Harvard era dar credibilidade a uma pesquisa, a um profissional, a uma conclusão. E agora? A revista “Science” era um baluarte da alta pesquisa, reservada aos melhores do mundo, aos cérebros invejados e úteis à humanidade. Não é mais? Em quem confiar? Para onde foram os parâmetros que todos pareciam aceitar? Era só ilusão, jogo de cena, retórica de prestígio, poder?

      Recorro aos mestres da filosofia da ciência. Retomo o imenso e liberal Karl Popper: “Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes senão corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância”. Ciência é tudo que pode ser discutido e rediscutido a partir de evidências. Tento me agarrar em frases que me convenciam. Mais do que isso, convenciam tanta gente. Não convencem mais? O que houve? A ciência é só uma questão de ponto de vista? Cada um tem a sua verdade? A esfericidade da Terra depende do meu ponto de vista? Repito palavras para mostrar o quanto elas me faltam. Como convencer quem não está disposto a ouvir? Como argumentar com quem já fechou a porta? Olho para fora e pergunto: quantos ainda ficarão pelo caminho? Quantos serão levados pelo vírus e quanto morrerão pela falta de estrutura adequada para mantê-los em vida?


publicidade

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895