Feira do Livro em Nova Santa Rita
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Feira do Livro em Nova Santa Rita

Crônica de uma festa da cultura

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Estávamos no espaço público. Manhã ensolarada de sábado. Um dia atípico de agosto: céu límpido, temperatura amena, gente nas ruas. A comunidade de Nova Santa Rita, cidade da Grande Porto Alegre, saiu em massa de casa. Eu, patrono da Feira do Livro local, comemorava o sol, a alegria das pessoas e a festa em torno dos livros. A prefeita Margarete Simon Ferretti e o seu secretariado misturavam-se a professores, pais, alunos e outros cidadãos em conversas sobre os mais diversos assuntos. Os gregos poderiam certamente ver nessa reunião um bom encontro na Ágora.

      Gosto de ver os livros como totens em torno dos quais a civilização renova os seus valores. O livro é a única arma que possibilita mobilidade social. A sua munição é feita de palavras, ideias, informações. Para a maioria das pessoas a educação é o único elevador social. O livro é o principal símbolo desse mecanismo secular de transformação existencial. Admiro quem organiza feiras de livros. Dá trabalho, tem custos, não traz votos. Talvez um dia as feiras de livros sejam vistas como ararinhas azuis: espécies em extinção. Ou como vestígios arqueológicos de um tempo revoluto no qual se armazenava e transmitia saber sob a forma de textos impressos em papel. Essa modalidade, especialmente depois da invenção da prensa por Gutenberg, produziu um mundo triunfante baseado na razão.

      Ainda somos a civilização dos livros. Talvez eles deixem de ser impressos. Não podem deixar, porém, de contar histórias e fazer refletir. Toda vez que me falam em armas, eu saco livros dos bolsos dos meus casacos. Tenho vários com bolsos enormes. Creio que o livro de bolso foi inventado como proteção contra os que andam armados. Há quem faça selfies em estandes de tiro. Só admiro mesmo quem se fotografa em praças repletas de livros. As funções do livro são: formar, informar, promover reflexão, emocionar, enternecer, divertir, reunir os diferentes em torno de um denominador comum, proteger contra o obscurantismo, a ignorância e o medo.

      A manhã fluía suavemente. Houve homenagens a pais educadores e a jornalistas comprometidos com os interesses da comunidade. As cuias de chimarrão passavam de mão em mão, menos nas minhas, pois, para desgosto de meu pai, nunca aprendi a tomar mate. Há duas bebidas cujos gostos me parecem muito estranhos: cerveja e chimarrão. Sou um tomador de chá. Encontrei, na Feira brilhando ao sol de lagartear, um velho amigo dos tempos de futebol aos sábados à tarde. Ele é professor em Nova Santa Rita. Nada como um abraço saudoso de alegrias sem preço compartilhadas durante anos. Bati um papo como o ex-árbitro de futebol e agora comentarista de arbitragem, irmão da prefeita Margarete, Carlos Simon. A vida assim faz mais sentido: amizade, cordialidade e cultura... esperando os Gre-Nais.

      A educação pode servir para conservar as estruturas ou para ajudar a modificá-las. Cada sociedade escolhe. O Brasil vive um conflito entre educação para emancipação e educação para a conservação. Quem vencerá?