Felicidade faz cem anos

Felicidade faz cem anos

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 Eu sempre digo que sou lido por mulheres. São elas que me compreendem. Na faixa dos 80 a 101 anos, eu tenho a preferência. São leitoras fiéis, detalhistas e generosas. No dia 22 de março deste ano da graça de 2017 uma das minhas leitoras fez cem anos: Dona Felicidade Cruz Krás. Avisado pelo seu afilhado, Luiz Kisiolar, dei uma passada na festa, que aconteceu no domingo, 26, no clube Geraldo Santana. Foi uma alegria. Nascida em Canoas, em 1917, ano da revolução russa, de “Há uma gota de sangue em cada poema”, primeiro livro de Mário de Andrade, e “A cinza das horas”, obra de estreia de Manuel Bandeira, Dona Felicidade comemorou seu centenário sorridente.

Ela demorou alguns minutos para me reconhecer. Quando o fez, me abraçou com energia e me fez um elogio que não esquecerei: “Tu és o meu desjejum de todo dia”. Em seguida, desejou que Cláudia e eu cheguemos aos cem anos juntos. É uma perspectiva que me agrada. Os familiares me contaram que quando foram mexer nos tesouros de dona Felicidade para fazer um vídeo encontraram muitas colunas minhas recortadas. Abracei dona Felicidade e fiz-lhe a pergunta clássica: “Qual o seu segredo?” Ela me respondeu com um sussurro: “Gostar da vida”. Em 1917, quando dona Felicidade veio ao mundo, o Brasil conheceu greves que se tornaram famosas. O movimento operário mostrou os seus dentes para uma elite voraz, indiferente e ainda contaminada pelo espírito escravista que dominara o país por quase 400 anos. Os patrões achavam razoáveis jornadas de trabalho de mais de 13 horas.

Muita coisa importante aconteceu há cem anos. Composto em novembro de 1916, “Pelo telefone”, de Donga e Mauro de Almeida, foi o primeiro samba a ser gravado, em 20 de janeiro de 1917. Dona Felicidade chegou embalada pelo ritmo que se transformaria na identidade brasileira. Depois de encontrar dona Felicidade, fiquei pensando na sua longa trajetória, em tudo o que viu, viveu, conheceu ou acompanhou pelos jornais que tanto gosta de ler. De Venceslau Brás para que cá ela foi cidadã em todos os governos brasileiros. Quantas apostas, sonhos, ilusões e desilusões? Quando um certo Vladimir Lenin tomou o poder na Rússia, dona Felicidade tinha seis meses de idade.

Eu não tenho apenas leitores de mais de 80 anos. Sei que muito jovem me segue. Sinto orgulho desse público de longo curso que me brinda com sua atenção diária. É, creio, uma questão de sinergia, de atmosfera, de imaginário. Sou cada vez mais um ser com um pé no passado e outro no presente. Curto a experiência dos que vivem muito. Eles sempre me fazem pensar na canção de Lupicínio: “Esses moços, pobres moços/Ah! Se soubessem o que eu sei/Não amavam, não passavam/

Aquilo que já passei”. Os idosos de hoje sabem, porém, que a juventude precisa apostar e errar para um dia falar da sua vivência. Fiquei apaixonado por dona Felicidade. Amor à primeira vista. Cláudia até precisou avisar: “Olhem que eu estou aqui”. Há lugar para as duas no meu coração. Bandeira cantou há cem anos: “Sou bem-nascido. Menino,/Fui, como os demais, feliz./Depois, veio o mau destino/ E fez de mim o que quis”. Acho que o destino gostou de dona Felicidade.

 

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