Fico em dívida com 2021

Fico em dívida com 2021

O que não pude fazer

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      Todo ano a gente pensa em fazer tantas coisas. Ao final, faz as contas e constata que está em dívida. Em 2021, não fiz muito do que desejava. Não fui a Paris, Braga, Rio de Janeiro e São Miguel dos Milagres. No apagar das luzes, fui a Palomas. Ainda bem. Seria muito triste encerrar um ciclo sem beber na fonte do começo de tudo. Convites não me faltaram para viajar. Recusei todos por medo de uma reinfecção. Sou como aquele personagem do filme “A montanha dos sete abutres”, Mister Boots, que usava cinto e suspensórios: cauteloso. Quase tudo que as pessoas fazem em busca de adrenalina, e que no passado me fascinava, hoje me contento em olhar. Aprendi o prazer da contemplação ativa e alegre. Já não sonho, hoje faço com meus olhos o meu viver. É uma maneira de dizer, não uma confissão de inatividade.

      Ao longo do ano, prometi caminhar mais e sofrer menos, torcer mais e secar menos, ser mais positivo e menos cético, mais emotivo e menos pragmático, aproveitar mais a vida, mesmo no isolamento, e pensar menos no futuro. Caminhei mais. O meu passivo é grande. Não fiz piquenique, não adotei um gato, não reli Stendhal, não revi “Cidadão Kane”, não ouvi as sonatas de Beethoven tantas vezes quanto gostaria, não mandei mensagens a pessoas queridas que se perderam nas bifurcações da vida, não acordei cedo para respirar o ar puro do amanhecer, não escrevi um conto sobre aquela luz que me iluminou numa tarde de 1981, não recuperei aquele livro que emprestei em 2003.

      Ao menos, nestes últimos doze meses controvertidos, não ouvi os arautos do pior, tomei minhas dozes da vacina, escutei pessoas inteligentes falarem sobre nossos problemas, mantive os pés no chão, a cabeça acima dos ombros, por vezes nas nuvens ou na lua, busquei me manter firme, informado, confiante e de meias para evitar o frio nos pés. Li Tolstói: “O que é grande é bom, o que não é grande é mal. Ser grande é, segundo eles [historiadores que narraram a retirada de Napoleão da Rússia em 1812], a qualidade daqueles indivíduos excepcionais que chamam de heróis. Napoleão, envolto na sua quente peliça volta para casa, abandonando à sua perda, não só seus companheiros de armas, mas (segundo sua própria confissão) pessoas que levou até lá, e sente que isto é grande e fica de alma tranquila”. O autor de “Guerra e Paz” foi o primeiro grande crítica da tietagem.

      Cheguei a pensar em reformar o Brasil em 2021. Pelo meio do ano, concluí que não teria êxito na missão e desisti. Em dezembro, pensei em me oferecer para combater estorninhos, a praga que atua em bando e devasta o que encontra pela frente. Também percebi rapidamente que seria uma roubada. Fiquei em casa. Vez ou outra, temos ideias extravagantes durante os comerciais da televisão. Não pensei em ir à Farofa da Gkay, o evento, ao que parece, do ano por não ter sido convidado e por só ter tomado conhecimento do regabofe depois do acontecido. Acossado por tantas novidades tecnológicas e comportamentais, pensei em mandar nudes, mas a Cláudia me disse que não queria ver o celular dela entupido com imagens inadequadas.


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