Fora da caixa não encaixa
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Fora da caixa não encaixa

Reflexões sobre uma expressão enganadora

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Está na moda querer tudo fora da caixa. Fico com um pé atrás.

O que é mesmo fora da caixa? No mundo do trabalho, ser encurralado pela destruição da legislação trabalhista e ainda aplaudir. O máximo do fora da caixa para os “fora da caixa” é a uberização: dirigir muito, ganhar pouco, não ter qualquer proteção social e acreditar que se é livre. Se adoecer, sem plano de saúde estatal ou empresarial, nem poupança, o cara salta de fora da caixa para dentro do caixão sem delongas. Eu adoro estar na caixa. Se o capital não gosta de correr riscos, eu também não. Sigo o seu exemplo. Gosto de carteira assinada, FGTS, férias, décimo-terceiro, essas coisas criadas pela civilização.

      Parece que o conceito de civilização é muito dentro da caixa. Fora da caixa é o retorno da barbárie com nova roupagem. Quando um empresário me fala nas virtudes de viver fora da caixa, eu imediatamente quero sacar a minha carteira de trabalho azulzinha para me proteger do ataque frontal ou dissimulado. Notei que quem fala em fora da caixa costuma estar muito confortável dentro de alguma caixa fashion. Observei que os tais CEOs amam desencaixar as coisas. Falam disso em palestras para outros CEOs, todos instalados em suas caixas de vidro fosco, que podem ser móveis (Mercedes e outras que tais) ou imóveis (salas no centésimo andar de alguma torre de vidro e aço).

      Durante muito anos, o Chile foi considerado o melhor exemplo de país fora da caixa. A socialdemocracia europeia, com sua mania de proteção social, era o dentro da caixa a ser combatido. Os fora da caixa adoram falar da falta de privilégios aos políticos na Suécia, mas silenciam sobre a generosa caixa de proteção construída pelos suecos para se abrigar das intempéries do capital. O Chile era tão fora da caixa que se desencaixou deixando os fora da caixa perplexos. Eles continuam a recitar números sobre as maravilhas chilenas, como PIB e outros indicados gelados, enquanto, nas ruas, os chilenos clamam por algum enquadramento que os salve da “liberdade” imposta pela ditadura de Pinochet e admirada pelo fora da caixa Paulo Guedes.

      Na literatura, escrever fora da caixa significa inventar um texto que ninguém consiga compreender, o que, em geral, conquista prêmios, atribuídos por companheiros de caixinha, embora não melhore as vendagens, quase sempre mínimas, ou cabendo dentro de uma caixa, das pequenas. Pensar fora da caixa pode levar a situações inusitadas: os terraplanistas pensam fora da caixa. Os defensores de que o homem não tem papel no aquecimento global também. Há muita contradição entre adeptos do fora da caixa. Muitas vezes, eles são fora da caixa em economia e dentro da caixa em comportamento. Querem que todo mundo se ferre sem garantias sociais, mas que todos se mantenham nos limites da caixa quando a questão é sexualidade, gênero e valores existenciais.

      Há alguma coisa na ideia de fora da caixa que não encaixa. Tenho a impressão de que querem me encaixotar toda vez que ouço alguém dizer com incontida autossatisfação: precisamos pensar fora da caixa. Fazer inativo ganhando entre um salário mínimo e dois mil reais pagar contribuição previdenciária que não estava na regra do jogo é uma típica decisão fora da caixa. Leva mais rápido ao caixão.

Só não se pensa fora da caixa quando se trata de preservar as sacrossantas isenções fiscais para empresas de todos os tamanhos. Os governos estão encaixotados. São reféns de gente grande que não quer pagar imposto.