Ibsen, o causeur
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Ibsen, o causeur

Minha homenagem a um homem de espírito

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      Como muita gente, eu admirava Ibsen Pinheiro, mesmo não concordando muitas vezes com suas ideias sobre política. Gostava de Ibsen desde quando eu era adolescente e ouvia seus comentários sobre futebol. Achava que ele era mais analítico. Adorava as suas frases. Ninguém resumia como ele paradoxos e contradições numa fórmula. Ibsen fazia parte de uma geração, para usar uma expressão francesa, de “causeurs”. Especialistas da arte de conversar. Sabia contar uma história, tinha sempre uma boa tese para entreter um dedo de prosa, fazia deliciosos malabarismos retóricos, não batia de frente. Um show.

 

      Ibsen, embora mais novo, sempre me lembrava o grande Décio Freitas, outro “causeur”. Décio foi muito meu amigo. Eu tinha com ele conversas diárias de 45 minutos, no mínimo, ao telefone. Ibsen, certa época, me honrou com seus telefonemas. Era um prazer imenso ouvi-lo. Sempre me impressionou a capacidade que teve para enfrentar o massacre que sofreu a partir de uma lambança da mídia sem demonstrar ressentimento. Recolheu-se, recomeçou, manteve a fleuma e brilhou. Em 2014, no Esfera Pública, ele nos disse que o Brasil poderia passar por uma ruptura institucional. Não sei se foi essa expressão que usou. Quis dizer que talvez o mandato presidencial não chegasse ao fim. Achei que era exagero. Ela estava certo. Ibsen Pinheiro nada tinha de golpista.

      Sabia das coisas. Tinha informação e poder de análise. Gostava das suas teses sobre futebol. Havia sempre algo de irreverente nas suas tiradas. Não aderia aos modismos, resguardava a sua independência e a sua capacidade de interpretação. Por que não foi presidente do Internacional? Não sei. Acho que não quis. Merecia. Foi colorado full time. Meu último encontro com ele foi numa mesa, na Adurgs, na qual fiz o papel de mediador de um time poderoso: ele, Hermes Zanetti e Olívio Dutra. Os três mandaram bem demais e esbanjaram, como sempre, carisma.

      No Esfera Pública, na Rádio Guaíba, Taline Oppitz e eu, temos nossos códigos e reflexos condicionados pelas circunstâncias. Assim:

– Que vamos fazer amanhã?

– Que tal uma daquelas mesas com caras super inteligentes...

– Quem trazemos?

– Ibsen...

      Culto, grande leitor, argumentador de qualidade, Ibsen Pinheiro abominava o chute nas canelas ou a conclusão de bico. Tratava a palavra como os craques fazem com a bola: delicadamente. Burilava a frase até que ficasse redondinha. Então tratava de dizê-la como se fosse uma invenção da hora, inspiração pura, o que certamente também acontecia. O que mais me encantava no Ibsen era a sua capacidade de tratar, até onde sempre pude perceber, adversários como oponentes, não como inimigos. Diante de uma provocação, não agredia, analisava, interpretava. Quando ando mais agressivo, comprando brigas, paro, penso e me digo:

– Preciso aprender um dia a responder como Ibsen Pinheiro.

      Claro que para isso é preciso um talento gigantesco.