Imagens do Brasil: de Bacurau às privatizações
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Imagens do Brasil: de Bacurau às privatizações

País está à venda

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Ganhador do Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Cannes, na França, “Bacurau”, de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, é um filme estranho. Passa-se numa cidade imaginária do sertão nordestino riscada dos mapas. Parece que os diretores gostariam de ser os Tarantinos tropicais. É bala e bala. Não sei como explicar. Gostei do filme. Mas o achei um tanto confuso. Ainda não sei bem o que aconteceu. Acho que terei de ver de novo em horário mais palatável. É uma história de resistência local ou nacional a invasores estrangeiros, americanos.

      As sinopses garantem que o filme encara uma pergunta: como resistir a um inimigo desconhecido? A comunidade de “Bacurau” arma-se com o arsenal que tem no seu museu. A imprensa internacional dividiu-se. A revista “Variety” detonou: “Uma versão abrasileirada de ‘Zaroff, o Caçador de Vidas’, baseado em alusões à cultura e política locais, ‘Bacurau’ é um daqueles raros filmes que seriam melhor se fossem mais burros ou menos ambiciosos”. Le Monde gostou: “Um apelo à resistência num formato de faroeste que é difícil de acreditar ter sido formulado antes da última eleição presidencial no Brasil. E se o refinamento dramático de Bacurau nem sempre se eleva ao nível sagaz de sua intenção política, seu vigor e alegria selvagem carregam a narrativa”.

      Os diretores têm feito declarações contra a tentação governista de promover a censura em nome dos valores morais e do cuidado com o dinheiro público. Nos letreiros finais do filme, é o informado o número de empregos criados com a produção. Há muita referência a outros filmes em “Bacurau”. Uma crítica ironizou que, em vez de legendas, seria importante colocar notas de rodapé, especialmente para estrangeiros. Fazia muito, em todo caso, que eu não via uma sala de cinema tão cheia para uma primeira apresentação. Parecia avião com contagem e recontagem dos lugares para acomodar mais alguém. Vi no Cinebancários, uma das boas salas de Porto Alegre, que não pode entregar os pontos. A política oficial de desmantelamento dos sindicatos pode atingir até o cinema.

      Sônia Braga está ótima no filme. Nos últimos anos, em cinema e literatura, cultiva-se o gosto por certa estranheza. O maior pecado é ser claro. Estranheza parece sinônimo de sofisticação estética. É assim no argentino “Vermelho sol” e em “Bacurau”. Fica tão estranho, como oposto a explicadinho, que não se sabe bem do que se trata, mas obriga o espectador a participar imaginando ou inventando explicações para o que não compreendeu por falta de informações. Uma coisa é certa: em “Bacurau” tem um prefeito canalha, populista e entreguista, que provoca a reação dos moradores. É contra ele que se organiza a resistência.

      Para bons entendedores meia mensagem basta. “Bacurau” é uma alegoria. De que mesmo? Possivelmente de um país acossado por interesses escusos sustentados por parcerias entre políticos e “investidores” internacionais. Preciso de uma semana de repouso antes de ver o último filme de Tarantino, que oferece, segundo li, três horas de violência. Depois que o presidente Jair Bolsonaro botou o país à venda, com o anúncio de privatização generalizada, Bacurau fica mais compreensível. Se alguém quiser salvar uma lembrança, terá de resistir.