Infecção voluntária

Infecção voluntária

É ético inocular o virus em pessoas para acelerar a descoberta da vacina?

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      O termo até parece impronunciável: consequencialismo. A prática é simples: optar pelo que dê os melhores resultados, por exemplo, para a sociedade. O ativismo jurídico quando deixa de lado a regra escrita para adotar certa posição é consequencialista. Mais do que o princípio ou a literalidade da norma importaria a consequência. O governo inglês aprovou o chamado “teste de desafio humano”. Vacinar pessoas voluntárias sadias e na sequência inocular nelas o coronavírus. A ideia é apressar a validação de uma vacina. Os voluntários ficariam isolados em centros especializados sob os cuidados de uma equipe altamente preparada. Há risco? Sim. Até de morrer. O voluntário estaria ciente disso. É ético?

      Nigel Warburton, em “Uma breve história da filosofia”, fala de experimentos mentais que examinam as possibilidades do consequencialismo. Um deles, criado pela filósofa britânica Philippa Foot, é o do trem desgovernado que vai matar cinco pessoas. Se você mexer uma chave ele bifurca e mata só uma. Vale a pena? É ético? A consequência é boa? Menos mortes. A família do morto poderá dizer que foi um assassinato? O australiano Peter Singer defende a eutanásia quando a consequência de manter uma pessoa viva não lhe dê mais nenhuma satisfação, possibilidade de prazer ou de escolha. Para o consequencialista “a melhor ação é aquela que produz o melhor resultado”. Se não hospital cinco jovens precisam de transplante e um idoso é internado, seria conveniente deixá-lo morrer pelos outros?

      O limite do consequencialismo é a ética. Para salvar a humanidade do coronavírus seria ético testar vacinas em condenados à morte que recebessem o patógeno? Se um indivíduo pode arriscar a sua vida escalando o Everest ou fazendo uma travessia oceânica sozinho, sem que se possa impedi-lo, há legitimidade em aceitar que alguém se deixe inocular um vírus sem a existência de um tratamento garantido para os seus efeitos? O risco de morte é diferente? É o mesmo? Peter Singer tenta mostrar que não pensamos muitos sofre similitudes e diferenças. Se você está ao lado de um lago raso e vê uma criança se afogando, pula na água, mesmo estragando seu melhor sapato, para salvá-la? A resposta parece óbvia: sim. Então por que não manda uma quantia equivalente à do custo do seu sapato para salvar uma criança de morrer de fome na África?

      Você deixaria o seu filho escalar o Everest? Permitiria que fosse voluntário para receber a vacina e o vírus? Escalar o Everest, em princípio, não traz benefícios para os outros. Receber o vírus pode ajudar a salvar a humanidade. Quando alguém entra sem máscara num lugar fechado ou numa aglomeração corre o risco de pegar o vírus. Esse risco aleatório é mais tolerável do que o risco deliberado de ser infectado? A Organização Mundial da Saúde sustenta que princípios éticos devem ser respeitados. Até que ponto? Quais? A consequência pode flexibilizar esses princípios? Em outros casos de vírus respiratórios já se usou o método da infecção voluntária. É tempo de ciência extraordinária?


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895