Jogo eleitoral

Jogo eleitoral

Como se mostram os candidatos na televisão

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      Tenho hábitos estranhos: gosto de ver o horário eleitoral na televisão. Fico observando as estratégias dos candidatos. Campanha mais curta me agrada. O fim das coligações nas eleições proporcionais, também. Não vai dar mais para se eleger pegando carona em outra sigla. Cada partido terá de atingir o quociente eleitoral por conta própria. Os candidatos terão de levar a sua contribuição para a cesta eleitoral não podendo mais se eleger sem votos, só nas costas de um bom puxador. A tendência é que o número de partidos, se a regra não for mudada, comece a cair. É para ser bom. Sempre pode haver alguma distorção. Afinal, é política.

      O que me interessa mesmo é como os candidatos se apresentam na telinha. Há os que buscam nacionalizar a eleição municipal. Quanto mais à esquerda, mais nacionalizado ou até internacionalizado o debate. Parece que o prefeito terá poderes de presidente ou atuará na ONU. A novidade talvez seja que agora a direita, não só a extrema, torna mais ideologizado o discurso no sentido de uma explicitação da visão de mundo como elemento decisivo para a escolha. Era a esquerda que gostava de bater no peito e ufanar-se de ser de esquerda. O candidato conservador agora também faz questão de enfatizar que é de direita. Para não deixar dúvidas. Os extremos ideologizam. A extrema esquerda sugere que a sua ideologização é política. A direita indica que a sua ideologização é moral e que não é extrema. Outra estratégia é clássica: apresentar-se como detentor de uma visão técnica contra uma visão ideológica – falsificadora da realidade – do oponente.

      O centro equilibra-se na corda bamba em função, por exemplo, de alianças com parceiros que talvez preferissem rasgar mais a bandeira ideológica. Os marqueteiros vivem. Mas parecem mais discretos. Já não dá para oferecer tudo sabendo que se poderá entregar pouco. Não há candidatura sem promessa. Eu, que nunca tive partido nem adesões ideológicas, tendo passado de um anarquismo juvenil a uma socialdemocracia sueca, observo essas dinâmicas eleitorais com a curiosidade de um botânico ou de um zoólogo. Analiso como cada espécie se acasala, reproduz e espalha os seus sinais de sedução. O eleitor é uma mosquinha a ser capturada pela teia da aranha. Numa democracia, cada um tem direito a uma ideologia e quem sabe, em tempos hipermodernos, até a mais de uma. O candidato não deixa de ser um produto à venda que precisa se “vender” como especial, de princípios.

      Nada de ilegítimo nisso. Sempre me pergunto: como seria se toda propaganda fosse ao vivo, sem produção roteirizada, sem empacotamento, sem filtros para melhorar a imagem, sem artifícios? Haveria sempre uma pré-produção. Essa ideia de alcançar a essência do candidato, algo anterior a qualquer marketing, não passa de uma idealização. Porto Alegre tem candidatos bons para todos os gostos. Uma velha ilusão ressurge: e se o eleitor escolher racionalmente, examinando propostas, considerando a possibilidade real de solução de problemas da cidade, em função de prioridades, de urgências e de capacidade de realização?

Por outro lado, com Manuela D'Ávila liderando e com vaga no segundo turno, os demais tentam se mostrar aptos a derrotá-la no segundo turno. Cada um se apresenta como o mais capaz de vencê-la. Enquanto eles se entredevoram, ela navega. Hipóteses: o que fará a direita se Nelson Marchezan, atacado de dentro, for para a disputa final? Como fará para apoiá-lo? E ele, que acusou de corrupção muitos dos que tentaram impichá-lo, como buscará novos apoios?

Ir ao segundo turno poderá ser uma vitória de Pirro (tanto estrago para ganhar que o vitorioso estará em farrapos)? Nas pesquisas, Marchezan cresceu. A esquerda certamente gostaria de tê-lo como oponente na batalha final. A direita talvez se pergunte: como ele pode estar crescendo se é "odiado" por todos?

Nos Estados Unidos, o ganhador no voto popular pode perder para os delegados. Como aquele personagem de Machado de Assis que gritava "ao vencedor, as batatas", o americano pode dizer "ao perdedor, os votos". E aqui? Aqui, sempre é possível perguntar: não faltou combinar com o eleitor?

 


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895