Lagostas, vazamentos e comparações
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Lagostas, vazamentos e comparações

Brasil é um grande jabuticabal

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Na França, um ministro foi obrigado a pedir demissão por ter oferecido jantares com lagosta, pagas com dinheiro público, a convidados. No Brasil, o Supremo Tribunal Federal está autorizado a servir lagosta e vinhos importados, da lista dos premiados, quando bem entender. Nas suas férias, o então juiz de primeira instância Sérgio Morro barrou uma decisão de segunda instância e impediu a soltura do ex-presidente Lula. Nas férias do STF, eufemisticamente chamadas de recesso, o presidente da casa, ministro Dias Toffoli, na condição de plantonista, acaba de barrar uma investigação contra o filho da presidente da República, o senador Flávio Bolsonaro.

      Candidato à presidência da República em nome da moral, dos bons costumes e do combate à corrupção, Jair Bolsonaro defendia a meritocracia e condenava o nepotismo. Seis meses depois de eleito, ofereceu um presente de aniversário ao filho Eduardo, deputado por São Paulo, que completou 35 anos de idade: a embaixada do Brasil nos Estados Unidos. Acontece que o filhão não está capacitado para a enormidade do cargo. Na luta pelo poder, Bolsonaro atacava o toma-lá-dá-cá entre o Executivo e o Legislativo cuja expressão maior é a liberação pelos governos, em troca de votos, das verbas das emendas parlamentares para que os políticos façam bonito nos seus currais eleitorais. Sentado no trono, convertido à reforma da Previdência que antes condenava, Bolsonaro liberou mais de R$ 1,5 bilhão em emendas para amaciar os renitentes. Mesmo assim, diz fazer uma nova política.

      Um parlamentar do MDB garantiu que a liberação de emendas foi mera coincidência. Juiz, Moro vazava informações, obtidas legal ou ilegalmente, para ganhar apoio da mídia e da opinião pública. Afirmava que a população tinha direito de saber e que o conteúdo importava mais do que a forma de obtenção dos dados. Ministro, Moro condena o site The Intercept por vazar informações sobre a sua atuação como magistrado. Só a forma interessa agora. Paladino da lei e da moral, o procurador Deltan Dallagnol ganhou visibilidade mostrando em powerpoint o que considerava as engrenagens profundas da promiscuidade dos poderosos da política e da economia. Hoje, relativiza os seus diálogos impróprios sobre palestras e articulações entre Ministério Público e justiça para alcançar condenações.

      O ministro do STF Gilmar Mendes era o herói dos liberais. Louvava-se o seu imenso saber jurídico. Garantista, termo que designa os aplicadores da literalidade da lei e defensores das garantias individuais acima de tudo, passou a ser execrado. Dias Toffoli, tido por petista e ignorante em profundidades jurídicas, era menosprezado. Disposto a corrigir a sua rala biografia, o que só Freud explicaria, Toffoli quer ser o novo ídolo do bolsonarismo. Não sabe que, faça o que fizer, será sempre um reles pária. O passado não o largará. Ficará colado nele feito tatuagem.

      Indignada, parte da população batia panelas contra os abusos. Indiferente, por apreciar os resultados e não se importar com os meios, essa mesma população agora usa as panelas exclusivamente para as suas funções originais. A política é cozinhada em fogo brando. A corrupção era só um meio de chegar ao poder.

O Brasil faz rir.