Livros sobre a mesa
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Livros sobre a mesa

Leituras do mês de julho

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O breve recesso das aulas, em julho, permite olhar com mais carinho para os livros que se acumulam sobre a minha mesa. Eles me espreitam como gatos à espera de um carinho. Por vezes, são desafiadores. Parafraseando Mario Quintana, há tanto livro bonito e tanta página esquisita que nem em sonho lerei. Por falta de tempo. Tento tirar o atraso. Leio furiosamente. As tardes desaparecem velozes e geladas enquanto salto de “Enfeitiçados todos nós” (Insular), do grande contista Lourenço Cazarré, para “Ela se chama Azelene” (Libretos), mais uma incursão bem-sucedida pela prosa da artista plástica Maria Tomaselli. O livro alia sensibilidade à flor da pele com uma edição primorosa entremeada de gravuras. Uma presidiária vai trabalhar numa casa de classe média. Eis um coquetel explosivo e sério.

      Há surpresas como “O senhor das caminhadas” (AGE), de Mauro Fiterman, advogado e professor universitário, que se lança em novo universo tratando da importância de cultivar “bons valores” em nosso duro cotidiano: “Novo dia, novo viver. O começo de um novo dia, seja qual for, deve ser valorizado, na sua individualidade, muito mais pela complexidade que ele apresenta do que pelo que ele pode representar de forma abstrata e pré-concebida. Já não me interessa mais que dia é hoje, essa é a verdade. Não tenho mais motivos para pautar meus dias de uma forma tão pragmática; afinal, cada um dos dias reserva formas surpreendentes”. Belo desafio.

      Esbaldo-me num assunto da minha predileção, que explorei principalmente em “Vozes da legalidade, política e imaginário na era do rádio”, que seria mais justo se chamar “Brizola, a voz da legalidade”. Esbaldo-me em mais um livro de um velho parceiro de aventuras intelectuais e de debates históricos: “A metralhadora e a rosa. O Brizola que eu vi” (Versejar), do advogado, jornalista e escritor são-borjense Iberê Athayde Teixeira. Iberê tem o DNA do trabalhismo. Conhece o riscado. Faz pesquisa. Já publicou ótimos estudos sobre Getúlio Vargas e Jango. Nesta nova empreitada, em tempos de pós-verdade e de fakenews, trata de ir direto ao ponto. Assim: “Olhando os fatos sob a ótica imparcial e desapaixonada da História, não há como negar que a quartelada que derrotou Brizola e destituiu o Presidente João Goulart em 1964, foi desfechada sob a égide de uma ensurdecedora luta de classes que tomava conta do cenário nacional desde a trágica interrupção do governo Vargas, um decênio antes”.

      Nos primeiros lances do jogo, Iberê define Brizola em cores vivas e precisas: “Brizola era um gaúcho de sangue quente, aquela quentura tigrina que herdara do velho José Brizola, um taura maragato que fizera a Revolução de 23 no piquete de Leonel Rocha e fora assassinado nas vésperas da assinatura da Paz de Pedras Altas. Ao longo da vida pública Leonel Brizola seria sempre impulsivo em suas reações, quando se sentia provocado ou injustiçado por comentários ou ataques maldosos”. Um homem de fibra e de ideias. Está aí uma obra que brizolista algum pode deixar de ler.

Itinerários – A pilha de livros é grande, plural, provocativa. Passo uma tarde em companhia de “Memórias de um jornalista, de Cruz Alta ao Irã (Já), de Gilberto Lenuzza Pauletti. Longe da querência, Pauletti andou pelo mundo e trabalhou em grandes veículos, entre os quais Veja e O Globo. O seu relato é apaixonado, jornalismo na veia, recordações em tom de reportagem: “Fui para Porto Alegre em abril de 1963, três meses antes de completar 18 anos. A capital vivia em clima de efervescência. Ali estava sendo realizado o maior evento esportivo do mundo universitário, as Universíades – Olimpíada Mundial Universitária. De repente, aquela próspera – mas ainda provinciana – e mais importante cidade do Sul do Brasil se tornara a capital mundial dos atletas universitários”.

      A história de um jornalista é quase sempre um pedaço da história de um país: “O aprendizado foi enorme. Principalmente, para quem tinha saído do outro extremo do Brasil. Vocabulário, sotaque, comportamento – fui aconselhado, por exemplo, a cortar os cabelos e raspar a barba. Imagem que lembrasse Fidel ou Che Guevara não pegava bem. O colega Safiotti foi chamado para depor no Dops. Motivo: ele tinha na parede da sala um pôster de Che”. Esse era o tempo do qual alguns sentem saudades. Ditadura.

      O frio me afunda na poltrona vermelha que prolonga meu corpo. Leio os poemas de Amarildo Veiga, em “4 fases do homem” (Pub): “Por onde anda a alegria?/Anteontem a vi e/passeava de mãos dadas/com a ilusão”. Divirto-me com “A língua de Pelotas e outras barbaridades” (Insular), organizado por Ayrton Centeno, com textos de muita gente boa: Kleiton e Kledir Ramil, Adélia Porto, Cazarré, Geraldo Hasse, Giácomo Mancini e outros. Reflito com “Negritude e literatura na América Latina” (Cirkula), da professora Zilá Bernd. Retomo “Grêmio por dentro, bastidores e grupos organizados”, de Davi Lima de Oliveira. Releio deslumbrado “O tesouro escondido, carta aberta aos franco-maçons e a outros” (Sulina), de Michel Maffesoli. Passo meus dias de inverno aquecido por livros calorosos e ideias vulcânicas.