Megamina em Eldorado
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Megamina em Eldorado

Exploração de carvão assusta ambientalistas

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      Definitivamente o Brasil não é a Europa. Questões ecológicas não costumam empolgar a população por aqui. Ou demoram mais tempo. Há um problema sério às portas de Porto Alegre: uma megamina de exploração de carvão, em fase de licenciamento ambiental, em Eldorado do Sul. O jornalista Flávio Tavares tem denunciado o perigo de poluição e de contaminação do Rio Jacuí, considerado como a grande “poupança” de água potável da região metropolitana. No Esfera Pública, na Rádio Guaíba, Taline Oppitz e eu recebemos o engenheiro Cristiano Weber, representando a Copelmi, empresa que vai extrair o minério, e Jairo Menegaz, analista ambiental. O tempo esquentou. As posições são francamente opostas.

      O conflito opõe moradores da região, empresários e seus representantes. Um dos protagonistas é a Pampa Sul, empresa que pretende gerar energia com o carvão extraído. Há jornalistas cruzando armas. De um lado, Flavio Tavares. Do outro, José Barrionuevo. Em posição intermediária, Elmar Bones, que também esteve no Esfera Pública em debate com o professor Francisco Marshall. Os argumentos dos defensores do projeto, resumidos por Cristiano Weber, são estes: serão criados 13 mil empregos; a tecnologia existente permitirá a diminuição máxima de riscos; o carvão do lugar é o melhor do Rio Grande do Sul; o minério continua indispensável. A resposta dos oponentes, sintetizada por Menegaz, não é menos contundente: daria para obter o mesmo resultado em Candiota, no sul do Estado, fora de um espaço úmido; a ameaça ao meio ambiente é enorme, com possibilidade de chuva ácida afetando até belezas intangíveis como o por do sol sobre o Guaíba; a exploração acontecerá muito próxima de importantes mananciais de água; os rejeitos enterrados poderão contaminar o aquífero Botucatu. Marshall é cristalino: o lucro não justifica tudo.

      A discussão envolve inúmeros outros aspectos: o carvão não está ultrapassado como fonte de energia? Seria melhor investir em energias limpas? É aceitável correr risco de poluir uma região tão sensível em nome do lucro? Cada parte esgrime os seus pontos de vista. Elmar Bones lembra que a Alemanha, pátria de ambientalistas incansáveis, continua apostando no carvão protegida por muita tecnologia de ponta. Ao contrário do que pensam alguns, a Alemanha só pretende ficar livre do carvão em 2038. Mas já não tem minas. O leigo pergunta-se: que interesses estão por trás disso? É briga de cachorro grande. Fala-se em temor de uma nova Borregaard, a empresa de celulose que empestou Porto Alegre. As tragédias como a de Brumadinho aparecem na discussão. Weber afirma que não se pode estabelecer qualquer relação entre situações diferentes. A técnica de acumulação dos rejeitos, diz, é outra, mais segura, e que o Baixo Jacuí já é afetado pelo carvão de Charqueadas.

      Flávio Tavares alerta que a “degradação das águas com a mina de carvão será lenta, mas real” e que em duas décadas o “Jacuí levará ao Guaíba a pestilência ácida do minério”. Dificilmente um tema será mais relevante para os gaúchos, especialmente os da área metropolitana, do que esse. Audiências públicas aconteceram. O assunto continua, porém, distante da maioria. O meu lema seria, na dúvida, pro natureza. Enquanto o licenciamento é avaliado, queremos mais debates. O ambiente é sagrado.