Mulher e mãe

Mulher e mãe

O caso do menino Henry deixa o país perplexo

publicidade

      Quem esqueceu o assassinato de Isabella Nardoni? Ela tinha cinco anos e acabou jogada da janela de um andar elevado numa noite de março de 2008. O pai e a madrasta foram condenados pelo crime. Quem não lembra do assassinato do menino Bernardo Boldrini, de 11 anos de idade, em Três Passos, no Rio Grande do Sul, em 2014. O pai da vítima e a madrasta foram condenados. São coisas que colam na mente das pessoas. Dificilmente se apagam. Há uma espécie de roteiro comum que vai dos primeiros passos às tentativas de encobrimento. Um horror.

Monique – a mãe de Henry, o menino cuja morte, no Rio de Janeiro, chocou o pais neste ano de pandemia, medo e desesperança – foi recebida na prisão feminina para onde a mandaram com gritos de “uh, vai morrer”. É sabido que presidiários não costumam perdoar crimes contra crianças e vulneráveis. Haveria uma ética de criminosos. As investigações continuam. O ex-marido de Monique, pai de Henry, em entrevista há uma semana, contou detalhes da vida dela que ou produzem uma caricatura ou dizem muito sobre a personalidade dessa jovem de olhar duro. Ela seria narcisista e consumista. Ninguém sai matando, no entanto, muito menos filho, por ter os olhos no próprio umbigo e gostar de fazer compras. As frases de Leniel, contudo, produziram estremecimento. Psicólogos têm aí material para muita análise.

      Primeiro dado: Monique não ficou contente quando se descobriu grávida. Ela havia feito lipoaspiração e implantado silicone. Tinha outros planos para o seu corpo: “Num primeiro momento, ela teve um baque ao saber que estava grávida. Ela tinha feito uma lipoaspiração e colocado silicone. Estava com o corpo legal”, disse o ex. Como ele queria muito ter filho, ela aceitou levar a gravidez em frente. Foram, porém, nove meses duros, com vômitos, mal-estar e medo de pegar chicungunha. O marido ficou sem emprego. Foram morar em Bangu, na casa dos pais dela. Era tudo o que Monique queria deixar para trás. A expressão “estava com o corpo legal” provoca um choque na percepção de quem a lê. A gravidez viria estragar esse ideal de corpo perfeito, refeito, cinzelado com bisturi, adquirido como um objeto de consumo.

      Monique, segundo Leniel, teve muita dificuldade para amamentar. A maternidade parecia rimar com sofrimento para ela. O ex-marido acrescentou uma informação cujo teor cada leitor pesará: “Também era muito ligada à beleza, ao corpo. Só veste roupas de grife, usa joias. Era preocupada em ter as coisas. Eu, como marido, posso ter errado ao tentar dar tudo para ela e não colocar um freio”. Declarações de um pai atormentado com a morte do filho? De um ex que não digeriu a separação? Revelações importantes sobre o comportamento de uma mulher ou coisas banais sobre uma moça destes tempos de selfies e vaidades?

Projetos e projeções – Há uma semana penso nisso. Leniel afirmou que não sabia quem era Jairinho, agora acusado de ter matado Henry, quando soube do seu namoro com Monique. A fala seguinte pode ser terrível para Monique ou o desabafo de um despeitado: “A ganância é muito clara para mim. Ela trocou a vida que tinha numa casa em Bangu para ir para um condomínio de luxo na Barra da Tijuca. Passou a ter um bom emprego (no Tribunal de Contas do Município). Imagino que o que a gente tinha não era muito bom para ela. A Monique queria muito mais. Eu dei carro, dei cartão de crédito. Dei tanta coisa para Monique nessa vida”.

      Na prisão, Jairinho, que toma remédios para dormir, passou mal e foi levado à enfermaria. Ele negaria essa informação. O perfil do vereador não é muito diferente: egocêntrico, ambicioso, obcecado por poder e vaidoso. A isso se acrescentaria o descontrole emocional e a tendência para a violência. Contra crianças e mulheres. A sua frase mais chocante, depois da morte de Henry, é conhecida: “vamos virar essa página. Faça outro filho”. Foi o conselho que deu a Leniel. Antes e depois disso, ele acionou as suas mais poderosas relações pessoais, inclusive o governador do Rio de Janeiro, para tentar “virar a página” o mais rapidamente possível. Não conseguiu. Seriam Monique e Jairinho dois seres típicos de uma sociedade fria, narcisista e consumista? O narcisismo exacerbado e o consumismo sem freios levariam pessoas a cometer crimes hediondos? Essa perspectiva condena ou absolve?

      Leniel falou da posição de Monique em fotos com o filho ao longo do tempo: “Ela sempre aparece na frente, Henry atrás. Eu sempre estava em último plano. Em dez anos de casamento, era ela sempre na frente e todo o resto para trás”. Ao prestar depoimento numa delegacia da Barra da Tijuca, sobre a morte de Henry, Monique não deixou de fazer uma selfie. Esse é o talvez o aspecto mais impressionante da sua personalidade. O que ela quis marcar? O que diz essa atitude? Quando um repórter, no momento da prisão do casal, perguntou se eles tinham matado o garoto, Monique respondeu com voz firme: “Claro que não”. Na prisão, passou dias chorando e gritando. Chorava a mãe ou a mulher? Ficará esta frase de Henry: “O tio disse que eu te atrapalho”.

 


publicidade

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895