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Não faltam projetos a Bolsonaro

Governo quer mudar tudo

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Não se pode acusar o governo Jair Bolsonaro de falta de ideias. Se elas são absurdas, ou devastadoras, é outro problema. O presidente da República nunca escondeu o seu sonho de acabar com as reservas indígenas. Para ele, índio é como todo mundo, quer i-phone e férias na Disney. O ministro Onix Lorenzoni, fazendo eco ao chefe, tem falado em transformar uma rica área de proteção ambiental, em Angra dos Reis, numa Cancún brasileira. Foi nessa área que Jair Bolsonaro levou uma multa por pesca ilegal. Algo, para ele, imperdoável. O agente já recebeu a devida punição por ter agido corretamente. Agora, só falta encher o lugar de hotéis.

      O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, teve uma ideia arrasadora: acabar com a gratuidade universal do SUS. Esse projeto repercute outras duas aspirações: liquidar a gratuidade universal das universidades públicas, negada sempre que a sociedade reage, e cobrar aluguel, dito simbólico, pelos imóveis do Minha Casa Minha Vida. Essas impressionantes ideias estão em sintonia com o plano mais avançado que é o do superministro Paulo Guedes: acabar com o fim da aposentadoria pública. O regime de capitalização é só isso: a aposentadoria de cada um se torna poupança privada sob a supervisão do Estado para alto ganho dos bancos.

      No Senado, embora o presidente da casa tenha se negado a colocar a coisa em votação, a bancada ruralista quer modificar o Código Florestal de 2012 para anistiar desmatadores. É uma velha ideia que retorna em nome de um antigo e pomposo princípio, o da segurança jurídica, nome que se dá à tranquilidade necessária para cometer ilícitos sem correr riscos de uma punição posterior. Quem pode dormir serenamente diante da possibilidade de um processo só por ter derrubado um bom naco da floresta amazônica em honroso favor do aumento do PIB – que anda tão pequenininho a ponto de virar piada no Japão – ou do crescimento de uma conta num paraíso fiscal? Viagem presidencial custa caro? Decreta sigilo para que ninguém saiba dos gastos.

      Uma das mais fantásticas ideias tidas até agora pelos governistas tem a ver com o Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago aos idosos vulneráveis. Atualmente, o governo paga um salário mínimo mensal aos desamparados a partir dos 65 anos. Num gesto magnânimo, Guedes quer contemplar as pessoas desde os 60 anos. De onde tirar recursos? Dos ricos? Tributando dividendos? Taxando grandes fortunas? Não. Dos miseráveis que recebem o BPC. Todos passariam a ganhar R$ 400 reais até os 70 anos. Tira-se dos pobres para dar aos pobres. Não se mexe no que é dos ricos. Robin Hood teria muito a aprender com o nosso guedismo-bolsonarismo triunfante.

Motoristas cometem infrações? O governo acaba com as infrações. Radares para quë? Uso obrigatório de cadeirinha para criança? Sem multa. Exame toxológico? Bobagem. Aumenta o número de pontos na carteira para proteger o pobre infrator. E dê-lhe um revólver.

      Outra ideia ambiciosa domina o governo, tendo a ministra Damares Alves como gestora: anular o iluminismo de Voltaire, Kant e outros menos cotados. Voltar ao antigo regime. Já o ministro da Educação, o intrépido Abraham Weintraub, é mais modesto: ele só quer acabar com a língua portuguesa. O seu antecessor, o colombiano Vélez Rodríguez, não precisava fazer esforço nesse sentido. Na semana passada, ao dizer que “haviam emendas”, Weintraub deu um grande passo para atingir o seu objetivo.