Não vacinar adolescentes

Não vacinar adolescentes

Na contramão do bom senso e da ciência

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O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, é médico. Costuma falar com certa mansidão. Não faz o gênero espalhafatoso de outros. Mas algumas das suas decisões derrubam a casa. Na última semana, ele mandou interromper a vacinação contra o coronavírus de adolescentes de 12 a 17 anos sem comorbidades. Ninguém entendeu a medida. Especialistas torpedearam o doutor, que usou argumentos esquisitos e contraditórios. O principal é a morte de um jovem depois de vacinado. Só que não há ainda qualquer prova de relação causal entre a vacina e óbito ocorrido. Afinal, o que deu em Queiroga para sair da casinha?

Uma hipótese é que seja uma maneira de administrar o fornecimento dos imunizantes. Alguns Estados já estavam vacinando adolescentes na faixa em questão. O Brasil é um país curioso. A população aderiu totalmente à vacinação. Enquanto nos Estados Unidos uma parcela considerável não quer ser vacinada por ideologia, ignorância, medo ou em nome da liberdade individual, por aqui, ainda que alguns discursem sobre isso, todo mundo quer vacina no braço. É a melhor proteção à saúde e o caminho mais seguro para fazer a economia funcionar. Uma dobradinha vencedora no momento é vacina e máscara.


A Organização Mundial da Saúde, ao contrário do que disse o ministro Queiroga, não emitiu qualquer recomendação oposta à vacinação de adolescentes. Só não estabeleceu essa faixa etária como prioridade. Nos Estados Unidos, a imunização da gurizada está avançando bem. É um excelente caminho para garantir escolas abertas e seguras. Como se sabe há sempre muitos mistérios entre o mar e os ministérios. Razões que a razão desconhece, sob a forma de ciência, podem fundamentar o que se apresenta, em princípio, sem qualquer fundamento. Nesse tipo de jogo as regras nem sempre são claras. O Flamengo jogou sem torcida em Porto Alegre, contra o Grêmio, e achou justo contar com torcida, na partida da volta, no Rio de Janeiro. Vale perguntar: e a isonomia?
Misturo alhos com espantalhos? Ando aos saltos, que tenho pé de cabra. Acabo na velha pergunta poética e tão respondível quanto de onde viemos: que país é este? Um comentarista nacional resolveu a questão esportiva com um argumento eticamente imparável: cada um cuida dos seus interesses. Ah, bom! Não usamos essa exclamação. Traduzo: Ah, tá! Ou: valeu, falou, tá falado (essa é muito velha), conta outra! Queiroga balançou o coreto. Como diz um amigo: há braços. Para vacinas. A galera quer sair protegida para a balada. Meninada consciente e firme. A ciência não mostrou que adolescentes corram mais riscos do que adultos ao receber uma dose das vacinas disponíveis.
Dá para ouvir o canto dos guris: por que parou? Parou por quê? Alguns Estados não pararam. Casos de contaminação, de hospitalizações e de mortes estão em queda. Ainda bem. Respiramos. Isso tem um nome: vacina. Para melhorar ainda mais é preciso vacinar mais. A meta só pode ser uma: todo mundo vacinado o mais rápido possível com o número necessário de doses para assegurar o máximo de proteção. Agulha já! Muita lambança, pouca razão, os males do Brasil são.

 


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