Nomadland, o filme

Nomadland, o filme

Jornada pelo país da solidão povoada

publicidade

      Um filme melancólico. Dificilmente se encontrará adjetivo mais preciso para qualificar “Nomadland”, dirigido por Chloé Zhao, com Frances McDormand, grande vencedor do Oscar 2021. Interessante ver como o Oscar passou por mutações. Durante muito tempo foi esnobado pelos cinéfilos por premiar porcarias comerciais. Aconteceu, quando eu era muito jovem, uma polêmica envolvendo um filme chamado “Kramer vs Kramer”, que ganhou, em 1980, Oscar de melhor filme, melhor diretor, Robert Benton, melhor ator, Dustin Hofman, melhor atriz coadjuvante, Meryl Streep, e melhor roteiro adaptado. Parece que o Oscar caiu agora nas graças dos especialistas, dos apaixonados e dos críticos. A cerimônia de entrega dos troféus continua a chatice de sempre.

      A safra avaliada em 2021 foi boa, com predominância de temáticas sociais e de inclusão. Se eu fosse o grande eleitor, um ditador das honrarias, teria premiado “Meu pai”, sobre Alzheimer, como melhor filme, e “Quo Vadis, Ainda?”, como melhor filme estrangeiro. Não gostei de “Nomadland?” Sim, gostei bastante. É doloroso, com belas imagens e com uma ótima atuação de Frances McDormand, apesar do seu olhar de paisagem permanente, o que se pode entender na medida em que ela parece não ver o fim das suas andanças. Olha o vazio, o infinito, o horizonte perpétuo. Meio documentário, meio ficção, o filme é uma linha reta, sem pontos de virada, com a protagonista carregando o seu luto pela perda do marido. Mais do que tudo, o outro lado da América.

      Quem não tem vontade, vez ou outra, de meter o pé, de largar tudo, de sair por aí? A realidade é bem menos idílica do que o sonho? Todo mundo sabe disso. Não há ponto de fuga. Ser nômade não resolve o principal: o problema vai junto. Nesta época em que todos os gostos se equivalem, cada opinião é apenas uma opinião, exceto quando se choca com a opinião de algum grupo fortemente organizado. Toda crítica virou preconceito, ofensa ao gosto do outro. Os prêmios, contudo, hierarquizam. São hierarquias precárias, sem fundamentação definitiva. Gosto porque gosto e qualquer crítica ao meu gosto é arbitrária. Bom é o que funciona. Ou seja, o que encontra muitas pessoas que gostam.

      O paradoxo desta era da equivalência geral é que se pode ser cancelado por não gostar do gosto do outro. Experimente não gostar de exageros com cães ou de profusão de tatuagens! Se não gostar, tenha a prudência de não dizer. “Nomadland” cativa. Se alguém não gostou, melhor ficar quieto. Eu já pensei em sair por aí. Na infância, queria ser motorista de caminhão, astronauta e oficial de farmácia. Tudo se equivale, mas a humanidade adora distinções, estatuetas, medalhas e classificações. Eu queria ser o melhor camioneiro do mundo.

Nem aprendi a dirigir. Acabei me formando em oficial de farmácia. Não exerci a profissão. A moda dos astronautas passou por algum tempo. Decidi ser jornalista e professor para manter a cabeça nos ares. “Nomadland” despertou meu desejo de ser errante. Tenho errado muito. “Nomadland” fala do capitalismo como desses investimentos divididos entre renda fixa e renda variável: corre-se o risco, por um lado, de perder tudo e, de outro, de não ganhar nada. Daí parte da emoção.


publicidade

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895