Nunca esqueceremos Manaus

Nunca esqueceremos Manaus

Nada mais inaceitável do que a morte por negligência

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      No começo da pandemia, um amigo médico me mostrou o protocolo que deveria ser usado em caso de ter de escolher quem viveria e quem morreria. Fiquei chocado. Mas imaginei que não se chegaria a tal ponto. Quando leio sobre Manaus, fico estarrecido. O relato de um médico diz tudo: ele tinha 30 pacientes e oxigênio para dez. Manaus continua no noticiário. Lá, o horror atingiu o ápice. Faltava tudo. Só não faltaram os avisos de que o caos se aproximava. Fico pensando na situação dos médicos tendo de escolher: este respira, este não respira, este viverá, este morrerá, este terá uma chance, este não.

      Uma técnica de enfermagem desabafou numa reportagem: “Falaram que ambuzamos [como se chama o processo de ventilação manual]; sim, nós fizemos isso, mas cansa. Não tínhamos gente o suficiente para revezar, e o efeito prático não é o mesmo do oxigênio. Não tínhamos mais o que fazer, tinha hora que era assistir e torcer para o paciente suportar um pouco mais”. Quando os que poderiam salvar, tendo recursos, ficam limitados a torcer, algo se quebrou no pacto civilizatório e humanista. Uma coisa é a ciência atingir o seu limite. Bem outra é faltar oxigênio, leito de UTI, respirador, tecnologia.

      Manaus ficará na memória dos horrores que poderiam ter sido evitados. É imperdoável que não se tenha previsto. Se a previsão ocorreu, como de fato aconteceu, é inadmissível que a demanda não tenha sido atendida. Uma vez, na França, uma autoridade se declarou responsável, mas não culpada. Foi um escândalo. O caso do “sangue contaminado. A autora da frase, Georgina Dufoix, foi ministra da Solidariedade Nacional, no governo socialista de Laurent Fabius. Uma reportagem provou que o Centro Nacional de Transfusão Sanguínea havia distribuído sangue contaminado pela Aids. Se a justiça encontrou razões “técnicas” para absolver, a opinião pública não perdoou.

      Uma conversa, em meio desespero, em Manaus, faz pensar:

– Está faltando oxigênio.

– Por que não temos?

– Porque não mandaram.

      É legítimo pedir que alguém pague por isso? Cabe sustentar que há uma cadeia de responsabilidade e culpabilidade pelo que aconteceu? Há uma pirâmide a ser questionada? Eu penso nos médicos, nos enfermeiros e nos pacientes. Penso na dor que eles sentiram, na violência das escolhas que os primeiros tiveram de fazer, nas consequências para os relegados, no pavor das famílias, no olhar dos sacrificados, na angústia dos impotentes e na melancolia dos que foram obrigados a fazer escolhas fatais. Como esquecer que um dia, por questões burocráticas e políticas, que se converteram em negligência, foi preciso tirar o oxigênio de alguém para dar a outro? Ou negar oxigênio a quem dele necessitava para escapar da morte certa.

      Eu me lembrei de um famoso poema e o adaptei dolorosamente: assim na América, quando o sol se o põe, eu penso nos doentes e nos médicos de Manaus, eu penso no oxigênio que lhes faltou, e não me contenho: sinto-me parte de uma humanidade que falhou. Pode-se morrer por muitas razões, mas não por falta daquilo que pode ser oferecido. Manaus ficará como uma chaga. Só há responsáveis, mas não culpados?

 


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