O 13 de março de 1964
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O 13 de março de 1964

O dia em que Jango começou a cair

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      Jango começou definitivamente a cair em 13 de março de 1964, uma sexta-feira. No comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, ele deu o grande passo, aquele passo que faltava para uni-lo de vez ao povo mais humilde: anunciou de modo oficial as “reformas de base”, entre as quais a mãe de todas as reformas, a mais temida e a mais esperada: a reforma agrária. Ali, naquele dia, naquela hora, diante de 200 mil pessoas, João Goulart fez o seu mais vibrante discurso e selou o seu destino. A elite latifundiária que trabalhava pela sua queda encontrou, enfim, o pretexto que buscava para detonar o movimento derradeiro que levaria ao golpe midiático-civil-militar de 31 de março de 1964.

      Em “A memória e o guardião: em comunicação com o presidente da República: relação, influência, reciprocidade e conspiração no governo João Goulart”, com base na correspondência de Jango, o que se vê é como se chegou àquele 13 de março, àquela sexta-feira que seria fatídica. Jango, o homem de escuta, o bonachão, o herdeiro de Getúlio Vargas, o amigo dos sindicalistas, o fazendeiro rico, fez a sua grande aposta. O Brasil, para tornar-se, enfim, um país capitalista com futuro, precisava de um mercado interno, incluir os abandonados do campo, criar uma nova categoria de consumidores, alfabetizar milhões de brasileiros, romper com tudo aquilo que restava de um passado de exclusão.

      Pressionado pela esquerda para ir mais rápido, fustigado pela direita para não aceitar nem estimular radicalizações, cobrado pelo centro para manter o equilíbrio, Jango precisava definir-se, escolher uma rota, colocar as cartas na mesa, enfrentar as bruxas do seu tempo, que eram muitas e já não se escondiam. Terá pensado em algum momento que arriscaria tudo numa sexta-feira 13? Terá brincado com essa superstição antes de soltar o verbo e incendiar o país com, para uma parte, a esperança de um pedaço de terra para viver e produzir e, para outra parte, o espectro do comunismo tomando a forma das ditas “reformas de base”? João Goulart assumiu o seu papel histórico. Discursou com emoção diante de uma massa eletrizada. Pagou para ver.

       O golpe vinha sendo preparado desde 1961. As águas de março arrastariam as últimas resistências. Informes secretos chegavam ao presidente dando conta das conspirações. Só não se dizia publicamente como tudo explodiria. A imprensa atacava Jango o tempo todo. Chegaria o momento em que jornais pediriam abertamente a sua derrubada. Intelectuais que depois lutariam na resistência à ditadura engrossaram o caldo das críticas ao presidente da República. Tudo, porém, se acelerou naquela sexta-feira, aquele 13 de março que ficaria marcado na memória de muitos e que viraria história imediatamente. Naquele dia, Jango saiu da rotina presidencial para se tornar alvo absoluto dos donos do poder econômico, o homem a ser abatido, o político a ser eliminado, o “inimigo de classe” a ser destruído. O 13 logo seria 31.

      Jango começou a cair de vez quando alcançou o mais alto nível de compreensão das necessidades da população brasileira. Seria o homem certo no momento errado, o da Guerra Fria e do medo do comunismo?