O Facebook é malvadinho?

O Facebook é malvadinho?

Redes sociais não são neutras

publicidade

    Sabe-se que desde tempos imemoriais, quando ainda não existia o Alzheimer, que o mundo se divide entre tecnossauros e tecno-rosas. Isso já foi até objeto de belos livros. Os tecnossauros temem qualquer inovação tecnológica. Os tecno-rosas abraçam qualquer novidade técnica como a salvação definitiva da lavoura. No passado muito remoto, antes do controle, quando alguns visionários começaram a fabricar instrumentos de pedra, os tecnossauros teriam exclamado em coro:
– Estamos lascados.
    Noutra época, diante de um salto tecnológico, teriam dito:
– É fogo.
    Já os tecno-rosas saudaram o surgimento do Uber como a maior revolução da história do trabalho, a forma perfeita de ganhar dinheiro: sem patrão, fazendo os próprios horários, liberdade total. Quem fazia alguma ressalva, como a de que o motorista entrava com os meios de produção e o enforcado com a corda, era patrolado como anacrônico, vetusto, ultrapassado, comunista e incapaz de usar um aplicativo. Se defendia alguma regulamentação, era inimigo da liberdade. O mesmo se deu com redes sociais. Regulamentar o Facebook? Nem pensar. A justiça ter acesso a conteúdos do WhatsApp para desvendar crimes, crime de lesa-liberdade. Pois, a utopia uberista anda fazendo água. Uma ex-diretora do Facebook, Frances Haugen, em depoimento no congresso dos Estados Unidos, defendeu regulamentar a plataforma para que ela pare de atropelar democracias e de manipular adolescentes com o seu algoritmo sensacionalista e caça-cliques.
    Os tecnossauros vibram, limpam a garganta e dizem gravemente:
– Nós avisamos.
    Tecno-rosas choram, esperneiam e racionalizam:
– São as pessoas que pregam o ódio, não o Face.
    Mas o Face não mostra para todos os “amigos” o que cada usuário posta. Como numa velha banca de jornais, não há espaço para todos ficarem visíveis. O algoritmo seleciona o mais provocativo, aquilo que gera mais ódio, reação, polêmica, conflito, briga. Tenho de adormecer alguns perfis ou passo todo tempo vendo só as postagens de três ou quatro. Enquanto isso la nave va: um homem é morto por reclamar do preço da carne, um jogador de futebol chuta a cabeça de um árbitro, banqueiros guardam a grana que possuem em paraísos fiscais e o apagão do Facebook deixa o planeta em estado de perplexidade. O tecnossauro comemora a volta aos tempos de intimidade familiar. O tecno-rosa lamenta pelas horas sem compartilhamento de emoções e de saberes.
    Frances Hauges ensinou com a legitimidade do seu “lugar de fala”: o Facebook pode fazer de outra maneira. Não quer. Só pensa em ganhar dinheiro. Mark Zuckerberg sabe e aprova. O filósofo Martin Heidegger, aquele mesmo que se ajoelhou para o nazismo, já havia provado que a tecnologia não é neutra. O tecno-rosa ainda acredita na concepção instrumental da técnica pela qual o aplicativo é mera ferramenta, instrumento a serviço do usuário. O tecnossauro, saudoso da cordata máquina de escrever e do telefone estatal, provoca:
– Estamos lascados.

 


Mais Lidas


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895