O monstro do Palomistão

O monstro do Palomistão

Um ser muito esquisito e perigoso

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      Fábulas podem ser contadas em fim de ano. No reino do Palomistão, incrustado nos confins da Ásia, surgiu um ser muito esquisito. Seres esquisitos impressionam. Mas esse parecia ainda mais estranho. Olhado de longe, lembrava um dragão cuspindo fogo pelas ventas, se me faço entender, o que duvido muito. De perto, um homem. Sabe-se que as aparências enganam, que a vista distorce as coisas e que de perto ninguém é normal. Quanto mais de longe. Logo se percebeu que o bicho era muito perigoso. A cada dia, mastigava uma vítima e depois espalitava os dentes sem pressa. Literalmente. Podia, contudo, ser voraz e engolir seres humanos inteiros em poucos segundos. Ou simplesmente asfixiá-los rindo. Embora não tivesse cérebro, ostentava uma profusão de cabeças. Daí o seu imenso poder de disseminação.

      O reino do Palomistão sempre se destacou por seus paradoxos, nome dado pelos intelectuais no poder para as contradições e contrastes locais. Era rico e pobre, grande e pequeno, democrático e ditatorial, descontraído e formal, altamente hierarquizado e aparentemente livre de hierarquias, enfim, coisas assim, dessas que nem conseguimos imaginar. Alguns o viam como uma democracia racial; outros, como um dos lugares mais racistas do planeta. Para uns, era o reino por excelência da dissimulação; para outros, um paraíso da transparência. Um dos problemas do reino era a concentração de renda. O ministro do dinheiro entendia que isso era muito bom e que em algumas décadas todos seriam beneficiados pelos círculos virtuosos espalhados do centro pela periferia, como uma pedrinha jogada na água.

      Quando surgiu o monstrengo houve alarido. Em seguida se instalou uma discussão sobre a sua natureza. Que animal seria? Racional? Sólido? Ou feito de uma matéria volátil? Tenderia a se desmaterializar com o tempo? Ou teria capacidade para se renovar e permanecer? O tempo passava lentamente, alguns já se sentiam habituados e tratavam o estranho ser como monstro de estimação. Outros, tinham medo. Especialistas examinaram, de longe, o elemento e concluíram que ainda era cedo para tirar conclusões. Esse termo era muito discutido no reino do Palomistão. Para alguns, por significar um fechamento, nunca deveria ser usado, pois tudo permanece aberto por definição. Para outros, deveria ser usado com precaução para evitar erro. Para acabar com a controvérsia, adotaram a expressão considerações finais.

      E assim se passaram alguns anos. Estragos se produziram. A sociedade se adaptou para sobreviver. É incrível o poder de adaptação das pessoas. Sábios, de idade avançada, pois no Palomistão os sábios ainda eram velhos, aconselhavam os mais jovens a ter calma:

– Deixa estar, vai passar – diziam.

      Na falta de opção, essa sabedoria foi aplicada. Era viver ou viver. Um dia, o reino acordou diferente. Faltava alguma coisa. Ninguém sabia o que era. Saíram a procurar com sensores sofisticados importados dos Estados Unidos da América. Até que alguém se deu conta. O monstro sumira. Nunca mais seria visto. Um sábio, que festejava cem anos de idade justamente naquela data, exclamou em voz bem audível:

– Vida que segue!

     


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