O relato pungente de Hiltor Mombach
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O relato pungente de Hiltor Mombach

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Gritos da mente

 

      Certamente o mais tocante livro desta Feira de Porto Alegre será “Síndrome do pânico: quando o corpo grita” (Sulina), de Hiltor Mombach, colunista de esportes do Correio do Povo. Sou fã do Hiltor. Ninguém escreve tão bem e ironicamente quanto ele sobre futebol. O seu livro é um corajoso depoimento: desde 1991 Hiltor sofre de ataques de pânico. O seu relato é pungente. Cada descrição mobiliza um universo de subjetividade, indo do medo extremo de morrer ao apego à vida. Textos dos psiquiatras José Facundo Oliveira e Gildo Katz complementam a obra abordando essa doença do ponto de vista da pesquisa de Freud.

Quando o pânico chega, sempre como que do nada, a pessoa toma um choque. Não tem a menor ideia do que está acontecendo, não vê qualquer razão para o que está sentindo, busca uma explicação física, faz exames do coração e de qualquer órgão que possa ser responsabilizado pela disfunção, que espera ser passageira. Até se chegar a um psiquiatra vai um longo caminho de descobertas e de lutas contra os próprios preconceitos, sem contar evidentemente os alheios. São muitos os sintomas. No caso de Hiltor a sensação de sufocamento e de morte iminente predominam. Há quem tema perder o controle e enlouquecer. Uma constatação de Hiltor arrepia: “Minha síndrome de pânico tem ligação forte com a ameaça de perder aquilo que foi conquistado”. Todo o talento do mundo não salva do desamparo sentido quando a doença ataca.

Li o livro de Hiltor com o coração apertado. Li os artigos dos psiquiatras sobre neurose de angústia com voracidade. Não pude deixar de pensar numa letra do Gonzaguinha: “Quando eu soltar a minha voz por favor, entenda/Que palavra por palavra eis aqui uma pessoa se entregando/Coração na boca, peito aberto, vou sangrando”. É paradoxal o sentimento que vaza de uma leitura assim: empatia e agradecimento. Obrigado, Hiltor, pela coragem de se expor e de compartilhar conosco o teu drama. Obrigado por saberes lutar sem aceitar se reduzir à condição de vítima. Obrigado por seres humano, demasiadamente humano, semeando com teu exemplo elementos para que outros busquem ajuda.

Hiltor traduz até com humor a perplexidade que experimentou ao descobrir a sua doença: “Não é que um cara normal como eu sofria de pânico! Mas aquele cara sentado na minha frente poderia estar redondamente enganado. Teria de me convencer. O psiquiatra relatou as causas e os efeitos e eu fui ficando desnorteado”. Depois do diagnóstico vem o desafio de viver negociando com o mal sempre à espreita. Tomar remédio sempre ou apenas nas crises? Viajar sozinho ou só acompanhado? Contar ou silenciar sobre a doença? Cutucar a doença ou tentar se esconder dela? Antecipar sintomas, conforme a expressão de Hiltor, e pegar a crise pelo rabo? Sonhar com a cura ou adaptar-se?

A verdade faz a grandeza de uma obra. O livro de Hiltor Mombach é um grito emocionante que espalha autenticidade e bravura, a força pura de homem que busca no amor pela família e pela existência o freio à fúria dos seus neurônios. O grande relato da Feira do Livro de 2017.