“O segredo do Bonzo”

“O segredo do Bonzo”

Da origem dos grilos ao surgimento da cloroquina

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      Eu escrevi Bonzo. Não confundir. “O segredo do Bonzo” é o título de um pequeno conto de Machado de Assis que se encontra em “Papéis avulsos”. Nesse belo volume estão também “O alienista” e a “Teoria do medalhão”. No primeiro, o psiquiatra interna todo mundo. Depois, decepcionado com os resultados e métodos, libera os pacientes e interna-se ele mesmo. Na segunda história, o pai aconselha o filho a tornar-se medalhão (se dar bem na vida), o que conseguiria mais facilmente, segundo a cartilha do homem experiente, não tendo qualquer ideia ou chegando a sufocá-las para não atrapalharem as concessões.

Em “O segredo do Bonzo” o buraco é mais embaixo. Questão de saúde pública. Na cidade de Fuchéu, no século XVI, dois amigos veem cenas curiosas. Na primeira, um homem anuncia a descoberta da origem do grilo, resultado do ar e das folhas de coqueiro. O homem dizia-se conhecedor de matemática, filosofia e física. A multidão o aclamou gritando o seu nome: “Patimau, Patimau”. O narrador e seu amigo Diogo Meireles, praticante da medicina, ficam impressionados. Na segunda cena, outro homem anunciava a descoberta do princípio da vida futura: uma gota de sangue de vaca. Chamava-se Languru e foi ovacionado.

      As pessoas estavam dispostas a morrer por Patimau e Languru. Graças a certo Titané os dois amigos foram ver um ancião, de 108 anos, capaz de esclarecer as cenas vistas. O sábio explicou a sua teoria: “Considerei o caso e entendi que, se uma coisa pode existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existências paralelas a única necessária é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente”. Patimau e Languru, “varões astutos”, souberam meter suas ideias na cabeça do povo e passaram a desfrutar da “nomeada de grandes físicos e maiores filósofos e têm consigo pessoas capazes de dar a vida por eles”. Os amigos ficaram entusiasmados e resolveram praticar.

      Cada um bolou um experimento para aplicar a teoria do “bonzo”, conhecido por “Pomada”. Os dois primeiros não foram longe. O primeiro tentou transformar o que vendia em “alparcas de Estado”. Manipulou como pode para empurrar o seu artigo. O segundo precisou a teoria, mostrando que o importante não é “inculcar nos outros uma opinião que não temos, e sim a opinião de uma qualidade que não possuímos”. Dito isso, convenceu um público de que tocava muito um instrumento que tocava pouco ou nada. O último, Diogo Meireles, com seus conhecimentos de medicina, resolveu enfrentar uma “singular doença” que “lavrava” na cidade. A doença inchava os narizes até deformá-los. Diogo encontrou a cura: amputar os narizes verdadeiros e colocar narizes “metafísicos”, ou seja, inexistentes, no lugar deles. O sucesso seria imenso.

      Na fase três, vamos dizer assim, por influência da mídia, das suas demonstrações, diante de especialistas da opinião, mostrou as suas armas e bagagens. Nas suas primeiras tentativas, havia errado o caminho. Reconsiderou, formulou nova hipótese e foi atrás dos resultados, que não se fizeram esperar. Como se sabe, no reino da opinião o mais importante, para começo de conversa, é ter uma boa opinião de si mesmo, se for o caso, contra quase tudo e quase todos. Em se tendo poder não faltará adesão e apoio para o que precisar.

Lenços – Reunidos, “o assombro da assembleia foi imenso, e não menor a incredulidade de alguns, não digo de todos, sendo que a maioria não sabia que acreditasse, pois, se lhe repugnava a metafísica do nariz, cedia entretanto à energia das palavras de Diogo Meireles, ao tom alto e convencido com que ele expôs e definiu o seu remédio”. Saber comunicar é tudo. Fundamental é ter carisma, algo tão carnal quanto um nariz metafísico. Para não ficar em segundo plano, diante da novidade apresentada pelo “pesquisador”, doutos do reino resolveram avalizar as ideias de Meireles. Doentes acorreram. Diogo metia os dedos numa caixa “onde fingia ter os narizes substitutos, colhia um e aplicava-o ao lugar vazio”. Os enfermos nada viam no lugar do nariz, mas iam trabalhar certos de ter sido curados. Qual a prova dessa cura?

Para o reino de Bungo a descoberta era revolucionária. Podia-se voltar à normalidade, abrir a economia, presume-se, e tocar a vida. Era tudo o que se queria. A narrativa não dá detalhes sobre perda de olfato nem sobre como amparar os óculos em narizes impalpáveis. Certamente as autoridades acalmavam os ânimos com explicações convincentes e de bom senso como “cada dia com a sua agonia”.

A prova é dada pela conclusão logicamente irretocável do narrador: “Nenhuma outra prova quero dar da eficácia da doutrina e do fruto dessa experiência, senão o fato de que todos os desnarigados de Diogo Meireles continuaram a prover-se dos mesmos lenços de assoar. O que tudo deixo relatado para glória do Bonzo e benefício do mundo”. Fosse hoje daria Nobel. Eis a origem da cloroquina. Alguns acham também que da frase absoluta “tudo depende da opinião de cada um”.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895