Os perdedores da eleição 2020

Os perdedores da eleição 2020

Bolsonaro e PT beijaram a lona

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      Na roleta eleitoral nenhum número é garantido. Jair Bolsonaro arrastou todas as fichas em 2018. Passados dois anos, sai dos pleitos como o grande perdedor. Onde foi cabo eleitoral explícito, afundou. Nada que signifique uma derrota certa em 2022. Até lá a roda vai girar e pode dar vermelho 13 ou amarelo, qual número mesmo? Façam as suas apostas. O PT não ganhou capital. Norberto Bobbio, o grande pesquisador italiano que coordenou um fabuloso Dicionário de Política, se vivo fosse poderia ter aprendido muito com as eleições municipais brasileiras deste ano.

      Aprenderia, por exemplo, as novas definições de comunismo e anticomunismo. Muita gente achava que eram termos com cheiro de naftalina. Não. Estão mais fortes do que nunca. Como um prefeito não pode abolir o Estado nem decretar o fim da propriedade privada, o que significa mesmo comunista numa disputa municipal? Várias coisas: 1) Todo aquele que discorda do Bolsonaro e da cloroquina. 2) Todo candidato que privilegia o social ao individual, o público ao privado, o interesse comum ao lucro, a vida à mercadoria, a proteção ao meio ambiente ao dinheiro. Enfim, um socialdemocrata. Essa definição, evidentemente, pode ser chamada de comunista. Mas é só um levantamento de falas nas propagandas eleitorais que passaram na televisão.

      Anticomunista: candidato que apoia Bolsonaro e ataca tudo o que comunista defende. Há o anticomunista patriota, que vê nos comunistas inimigos da nação, internacionalistas contumazes e até potenciais comedores de criancinhas. Há também o anticomunista liberal que vê na famosa mão invisível do mercado um instrumento mais eficaz de realização do interesse público. Por meio da mercadoria, o social seria mais bem servido. É leitura que nunca pode ser desconsiderada. O problema da mão invisível no Brasil é que ela costuma ser vista aceitando subsídios públicos ou distribuindo propina para eleitos.

      O problema do comunista brasileiro é que ele pode aceitar patrocínio privado. O Brasil não é para defensores de conceitos puros. Nessa polêmica, uns juram que o Brasil nunca foi liberal e outros garantem que sempre fomos comunistas. Os índios, de resto, ainda não se converteram ao capitalismo. Comunistas de cartão postal e anticomunistas costumam ter um ponto em comum: alguma resistência ao humor. Levam-se muito a sério. Fazem, até certo ponto, bem. Não se permanece o que se é sem muita resistência aos estragos do tempo.

      Bolsonaro perdeu. Em 2022, quando se dará o novo grande confronto entre comunistas e anticomunistas, tudo poderá acontecer. Por que Bolsonaro perdeu? Porque não entregou o que prometeu dois anos atrás. Talvez por não ter anotado. As derrotas foram muitas: perdeu na Argentina, na Bolívia e nos Estados Unidos. Parece que Donald Trump vai admitir a derrota se puder jogar golfe com status de presidente. Foi-se mais uma eleição. Eu continuo com a minha proposta: fazer do Brasil uma grande Suécia. Sugiro até mudar de nome: Suécia do Sul. Capital: Rio de Janeiro. Tem país com duas capitais. Não tem? O Rio precisa de uma função que não seja só a de fazer aglomeração. Em Porto Alegre, Sebastião Melo ganhou com uma folga que chegou a parecere impossível na reta final. Como quase sempre, as pesquisas erraram feio. Só a pesquisa falsa acertou o resultado.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895