Para ler na pandemia

Para ler na pandemia

Livros que imunizam

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      Sou extremista: melhor taxar armas do que livros. O ministro Paulo Guedes acha que só rico lê livros no Brasil. As dicas de leituras que seguem são gratuitas. Algumas chegam atrasadas. Nunca é tarde, porém, para abrir obras que nos esperam silenciosas nas estantes ou sobre as mesas. Elas guardam ideias cheias de paciência.

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      Para quem não teme assuntos técnicos, “Crime político, segurança nacional e terrorista” (Tirant lo Blanch), de Alexandre Wunderlich, é imperdível. O autor é doutor em Direito e professor de Direito Penal e de Direito Penal Econômico e Empresarial na PUCRS. O livro trata de “violências de Estado e defesa das instituições democráticas”, da famigerada e muito em voga “Lei de Segurança Nacional” e da “Lei antiterrorismo”. Nos tempos que correm, melhor ter esse livro à mão.

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      Quem prefere alta literatura, em especial de um prêmio Nobel, que tal ler “Klara e o sol” (Cia das Letras), de Kazuo Ishiguro. Recebi de presente de meu amigo Leandro Minozzo, a quem ofereci “Extensão do domínio da luta”, de Michel Houellebecq. Quem merece presente é ele, médico atendendo pessoas com covid-19 ou com Alzheimer. Mas, com seu bom gosto, ele não se contém e presenteia também. Não direi muito sobre o livro. Contarei apenas que Klara é “um amigo artificial”. Isso mesmo. Está na orelha da obra. Recomendação importante: não comece a ler se estiver com pouco tempo. Não tem como parar. Pode-se até perder algum compromisso importante. Fica o aviso.

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      Agora, se o negócio é esporte, numa visão complexa, sem reducionismos nem deslumbramentos tecnicistas, aí o livro a ler é “Futebol, gestão por competências, o jogo do imponderável” (Sulina), de Elio Carravetta. Vai um aperitivo: “O futebol possui uma lógica? Aparentemente não. O futebol nos surpreende e não pode ser conhecido de antemão. A lógica oferece regras (a não contradição, a identidade, a dedução, a inferência etc) para estabilizar o conhecimento. Nessa linha, o futebol não é, nem pode ser, lógico. Ainda mais sendo s lógica base da ciência tradicional, ao contrário do futebol, que não é nem pode ser um objeto da ciência”. Resta recorrer ao olhar complexo.

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      Aos que gostam de autores de valor comprovado, um Mia Couto nunca decepciona. Leitura para algumas horas de escape se encontra em “A varanda do Frangipani” (Cia das Letras), que recebi da minha ex-orientanda de doutorado Cristiele Ribeiro. Sou uma pessoa de sorte. Ganho muitos livros. Sem razão alguma. Talvez por gostar de ler. Esta narrativa do moçambicano Mia Couto faz pensar em nosso maior clássico. Começa assim: “Sou o morto”. E o finado conta o que lhe aconteceu.

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      Admirador que sou da juíza Valdete Souto Severo, caí em cima de seu livro “A perda do emprego no Brasil – notas para uma teoria crítica e para uma prática transformadora” (Sulina), assim que me caiu nas mãos. Eis um tema que me tira o sono. Tenho medo da sociedade pós-trabalho. Não creio totalmente nas teses que asseguram um futuro glorioso fora do trabalho tradicional. Desconfio que a inteligência artificial e a automação vão nos deixar de mãos vazias e que teremos saudades da época em que podíamos fazer até mesmo trabalhos tediosos. Um fragmento: “Quanto mais o tempo passa, mais me convenço de que nada há de mais grave, escandaloso e perverso em uma sociedade capitalista do que a perda do emprego. Sob essa perspectiva, as regras sobre despedida afiguram-se quase distópicas”. Eu não deixaria de ler.

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      Um livro que me chegou na última sexta-feira pelo correio e me pegou imediatamente é “A filha do dilúvio” (Libretos), de Miguel da Costa Franco. É a história de quatro pessoas, Rosa e Caçapava, moradores de rua, e João e Sandra, figuras de classe média. Quando se cruzam, quando convivem, o que acontece? Como se relacionam? Não direi mais. Tenho certeza de que o leitor será fisgado por essa trama.

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      Por fim, uma dica do coração: “A tecnologia é um vírus – pandemia e cultura digital” (Sulina), de André Lemos, doutor em sociologia pela Sorbonne, professor da Universidade Federal da Bahia, grande especialista brasileiro em cibercultura. André foi meu colega de doutorado em Paris. Vai bem como pesquisador, ensaísta, romancista e poeta. Conjunto de textos provocativos e consistentes, toma o vírus e a tecnologia em suas dimensões sociais. Fala de “cultura digital” e “agenciamento pandêmico”. Mete o dedo em muitas feridas e polêmicas.

      Sinta, atento leitor, para não dizer que é elogio de amigo, a força da apresentação de Giselle Beiguelman, professora da Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Design da USP: “Se eu dissesse que André Lemos tem lugar cativo em minha estante, estaria mentindo. Mentiria, também, se falasse que está nos meus favoritos do meu browser. Tenho o costume de deixar sobre minha mesa de trabalho todos os livros que vou usar à mão e nunca fechar algumas abas do meu navegador às quais sempre recorro. De modo que os “meus Andrés Lemos” nunca ficam na prateleira ou nas minhas pastas. Vira e mexe, consulto um. Certamente isso não é particular a mim. André é um autor referencial. Não apenas porque suas obras são amplamente citadas, mas porque estão na base e no cume de qualquer pesquisa sobre cultura digital”. É isso aí.

 


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