Para onde vai a humanidade?
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Para onde vai a humanidade?

Atingimos o nosso limite?


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      A humanidade é forte ou fraca? O homem é mortal, mas a humanidade seria imortal? Somos, embora frágeis fisicamente, muito fortes por nossa inteligência e resiliência? Podemos superar todos os perigos que nos rondam, inclusive os vírus, ou estamos a caminho da extinção? Especialistas têm examinado essas questões. Cinco grandes perigos ameaçam a humanidade: vírus, bactérias, aquecimento global, guerra nuclear e fenômenos naturais internos ou externos à Terra. Enquanto cientistas trabalhavam para espichar a vida ao máximo ou até para acabar com a morte por doenças, o coronavírus apareceu e colocou tudo em suspenso. De repente, todos ficamos à mercê de um inimigo mortal.

      O jornalista Humberto Maia Júnior escreveu sobre esse tema há uma semana para o Universo Online. Ele lembra que 99% das espécies que habitaram nosso planeta já não existem. Por que seríamos a única espécie a perseverar? Alguns campos ficaram sem exploração. A humanidade olha para três e pode dizer que trilhou um longo caminho de um estado de natureza a um mundo amparado na ciência, na razão e na tecnologia. Vê também guerras, genocídios, catástrofes naturais e pandemias. Nada que não possa se repetir. Embora conheçamos os nossos erros, não necessariamente aprendemos com eles. A mesma humanidade que contempla o passado e faz o balanço de suas perdas e ganhos, olha para a frente e se pergunta quem pode acabar com a humanidade: a natureza ou o homem? Um vírus pode extinguir os seres humanos a qualquer momento. Os homens podem acabar com a humanidade e com a natureza juntas.

      A descoberta, em tempo recorde, da vacina contra o coronavírus provará a força da humanidade ou a salvará provisoriamente de um fim inevitável? A nossa escala de tempo histórico parece uma régua minúscula diante da escala da natureza. O coronavírus reafirma nossa fraqueza individual, embora talvez não consiga vencer nossa quantidade. Somos tantos que mesmo no pior cenário haverá quem escape para repovoar o planeta. Só que cada pessoa é uma singularidade sagrada insubstituível. Não somos meras bolhas de sabão que estouram sem deixar marcas. Eis o ponto: cada ser humano não é simples exemplar de espécie. Pensamos em habitar outros planetas, trabalhamos para viver centenas de anos ou até para sempre, salvo assassinatos e acidentes, planejamos reinventar a natureza, mas ficamos quase indefesos diante de um inimigo invisível. O coronavírus reduziu-nos à nossa verdadeira dimensão.

      Edgar Morin, pensador da complexidade, que completou 99 anos de idade na última quarta-feira, no livro que acaba de lançar, “Lições sobre o coronavírus”, e nas entrevistas que tem concedido, com sua voz sempre forte e límpida, afirma nunca ter visto uma crise tão multidimensional, complexa e total, que coloca a humanidade como um todo em alerta, xeque e choque. Uma pandemia, que parecia coisa de livros de história, voltou. Um vírus tem hoje meios de viajar como nunca antes. Se outrora os vírus viajavam nos porões de navios, hoje andam na primeira classe dos aviões. A velocidade de disseminação do mal tornou-se extrema. A tecnologia que salva também espalha o perigo.

      Continuamos atônitos diante dos mistérios que nos cercam. Pedimos à ciência que seja rápida, queime etapas e nos salve. Precisamos que a cooperação entre cientistas, laboratórios, países e indústria farmacêutica supere a competição e a busca pelo lucro. Está a humanidade preparada para colocar a cooperação acima da competição? O futuro dos humanos depende cada vez mais de uma ruptura de paradigma.

Geometria e matemática

A vida é uma linha reta,

Sem orientação ou seta,

Que só se curva para a morte.

O destino é um círculo torto,

Gravado na placa de um porto,

Que só se abre para a sorte.

A biografia é um quadrado perfeito

Cujo único e inapagável defeito

É ser o reflexo de outros números,

Todos eles quietos, frios, inúmeros

À espera de alguma definição.

Quando enlouqueci, me declarei poeta,

Prontamente me vi entre os maiores,

Não sabia que entre poesia e loucura

Há uma relação geométrica segura

E uma matemática esguia da aventura.

O poeta na sua loucura resolve incógnitas.

O louco na sua poesia inventa equações,

Que se espalham com os sopros de monções.

*

Máquina do tempo

 

      Todo homem é universal. Tudo que lhe acontece pode ocorrer aos demais. Por isso falo de mim. Universal por generalização. Volta e meia, queremos saber com precisão como éramos no passado. Minha amiga Zezé, pessoa maravilhosa que me conhece desde quando eu tinha 18 anos e estava descobrindo Porto Alegre, me enviou digitalizada uma carta manuscrita que lhe mandei de Santana do Livramento em julho de 1985. Lá se vão 35 anos. Eu era jovem, tinha cabelos longos e ideias curtas, mas generosas e cheias de belas utopias. Reli a carta e me emocionei.

      Eu estava apaixonado por palavras difíceis e autores mais difíceis ainda. Lia Mika Waltari, já citava “Conversa na Catedral”, de Vargas Llosa, usava termos como merencórica e solilóquio, homenageava Baco, deus do Vinho, curtia uma paixão platônica por uma colega carioca, que preferia nosso parceiro, promissor instrumentista gaúcho, que me desafiava a definir uma “quinta aumentada”, enquanto eu lhe cobrava que fosse mais preciso quanto ao surgimento do feudalismo. Leio na carta que eu ouvia “Let it be” e “Viagem”, que rodei ainda há poucos dias no Esfera Pública, ajoelhava-me diante da literatura de Hemingway, louvava a boemia, citava Álvares de Azevedo, “oh, taverneira, traz mais vinho, não vês que a botija está vazia e as gargantas estão secas?”

      Anarquista, falava em marxismo e em transformação social, repudiava as “teorias popperianas” (não fuja, caro leitor de crônicas), alfinetava os “egrégios burgueses”, passava rapidamente por Goethe, Kant, Schopenhauer, Nietzsche, Dostoievski, Ginsberg e Rimbaud. A lista de autores era vasta. Gostei deste parágrafo: “Ficarei em Livramento até o final do mês. Minhas tarefas são incontáveis. Ler Eça de Queirós, pensar na... Ler Hobsbawm, pensar na... Ler Vargas Llosa...” A enumeração incluía ainda Sófocles, Eurípides e Ésquilo. Terminava assim: “Escreve para este mancebo perdido entre as mazelas da solidão, desbravando plagas fronteiriças como um bardo de garganta maviosa”.

      Bardo de garganta maviosa. Uau! Havia uma poesia minha na carta, que seria musicada e cantada por nosso amigo Chico Camboim.

Tristana

 

É feito de barro o sonho de um surrealista

Suas cores são internas...

Marrons como a terra que pisamos

Azul é devaneio

Uma fuga pelo meio

Da tristeza e desencanto.

Toledo de Buñuel

É imagem de Tristana

Tristana, Triste Ana

Que no caos da ideologia

É a chama do meu fim.

Revejo sua partida

Choro em despedida

E Toledo desvanece

Nas nuvens brancas de uma prece,

Uma prece pagã

Tristana, triste Ana.