Passeio matinal
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Passeio matinal

Poesia crítica em tempos sombrios

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Ontem, dei uma volta pela cidade

Montado no meu cavalinho de pau

Vi as ruas esburacadas e um gato

Um gato tomando banho de língua

E sorrindo para as passantes,

Que se encantavam com seus olhos verdes

Um velho me mostrou seus dentes

Novinhos como uma propaganda

Vi moradores em situação de rua

E ruas em situação de miséria

Vi a lua antes de ela nascer

E o sol que não queria morrer

Vi uma mulher calçando o sapato

Sem meia nem meias verdades

Senti falta de vendedores de jornal

Encontrei sobre um banco de praça

Um velho dicionário abandonado

Era tanta palavra, tanta graça

Tanto verbo, tanto substantivo,

Uma infinidade deliciosa de adjetivos

Uma profusão de termos que nunca usarei:

Besugo, jaez, petiz, teratológico

Absurdo como auxílio-saúde para juiz

Sentei num bar para tomar cerveja

Esqueci que não bebo álcool há anos

Fui avisado pelo garçom: cuidado!

Então comi cereja com guaraná

Um homem sisudo e responsável

Visivelmente um cidadão de bem

Sentou-se sem ser convidado

Para me explicar o futuro,

Entre apólices e um seguro,

Foi duro: “Quero explicações,

Análises, teorias, conhecimento,

Não me venha com poesias”.

Passei na frente de um espelho

E aí tomei um gigantesco susto:

Como meu cavalinho de pau envelheceu!