Por que ver filmes de Tarantino?
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Por que ver filmes de Tarantino?

Entretenimento, arte ou sadismo?

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Não perco filme de Quentin Tarantino.

Ele, Pedro Almodóvar e o agora condenado Woody Allen são, de certo modo, os últimos personagens da era do cinema de autor. Um tempo que tinha assinatura e estilo. Todos se repetem. Mas se repetem melhor do que os outros. O novo Tarantino, “Era uma vez em Hollywood”, é o diretor, como se dizia em Palomas, “escarrado”. Não me venham com explicações sobre a expressão correta. Quem se interessa? Tarantino é Tarantino por filmar o imaginário do homem criado na frente da televisão, lendo histórias em quadrinhos, vendo desenhos animados, colecionando super-heróis e vilões, perdendo a conta das mortes vistas nas telinhas e nas telonas.

      Na metade do filme, sempre tenho uma crise de consciência, ainda mais quando são quase três horas de história, e me pergunto: “O que estou fazendo aqui?” Nunca levanto e vou embora. Sou contido demais para tamanha desfeita. Além de querer saber como termina. Tem sempre algo de besteirol num filme de Tarantino. Parece uma sessão da tarde com trilha musical bem escolhida e imagens perfeitas. Tem algo também de Tom e Jerry. Não é esse justamente o imaginário do homo hollywoodiano? A cena de violência, sempre tão característica do diretor, ficou, em “Era uma vez em Hollywood”, para o final. Spoiler? Nunca entendi essa história de spoiler. Franz Kakfa entregou tudo na primeira linha ao apresentar Gregor Samsa transformado num inseto.

      Tarantino parece dizer alguma coisa mais profunda sobre nós, sobre nossa época, nossos costumes, nossa obsessão por imagens: mas o quê? Fica perceptível que ele não se contenta em nos entreter. Haverá uma mensagem logo em Quentin Tarantino, o ícone da hipermodernidade? Tenho certeza de que sim. Só que essa mensagem nunca será decodificada. Por que volto ao cinema para ver Tarantino? Não chega a ser um divertimento. Pesa um pouco. Fico incomodado. Fecho os olhos nos momentos mais violentos, embora eles sejam tão caricaturais que façam rir. Ou alguém se perturba quando Pica-Pau cai de um edifício e fica esmagado no chão? Todo mundo sabe que ele vai levantar e sair correndo.

      Eis a minha tese: Tarantino expressa o que somos: uma fakenews. Como assim? Adoramos ser o que não somos. Amamos contar o que não vivemos. Hollywood falsifica para nós o que gostaríamos de experimentar sem maiores consequências. Alguém já deve estar dizendo que existe mais violência no mundo do que nos filmes de Quentin Tarantino. É verdade. Não precisamos, contudo, pagar para vê-la. Violência gratuita? Não. O preço da violência é pago por todos diariamente. O governador do Rio de Janeiro vibrando como se fosse um gol, ao descer de um helicóptero, com a morte do sequestrador de um ônibus com passageiros, abatido pelas balas certeiras de um Sniper, é uma cena típica do genial Tarantino.

      Num roteiro convencional, o governador, com voz compungida, lamentaria o desfecho, elogiaria os envolvidos e até consolaria a mãe do sequestrador. Como estamos num filme de Tarantino, o governador comemorou.

Coube ao pai de um dos reféns confortar a mãe do vilão.