Questão de inteligência

Questão de inteligência

Aglomerar-se em festas e praias é estupidez

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      Repito: eu entendo perfeitamente o comerciante que se desespera com restrições às suas atividades. Compreendo o prestador de serviços que não quer parar por medo de não sobreviver. Lockdown precisa ser bancado pelo Estado (governo federal). Conheço pessoas que já quebraram. Tinham pequenos negócios, um bar, um salãozinho de beleza, uma lojinha bacana. Penso em gurias que conheci trabalhando durante anos no mesmo lugar e perderam tudo. É de chorar. O que eu não entendo, não aceito e me revolta é marmanjo aglomerado em esquina para tomar cerveja ou amontoado em praia para bronzear o lombo. Tem marmanjo jovem e velho, homem e mulher, de todos os gêneros. As imagens são chocantes. Gente curtindo sem máscara em pontos da moda.

      Podíamos estar em situação melhor? Certamente. Como? Se tivéssemos investido vigorosamente numa vacina brasileira. Se não tivéssemos nos esbaldado nas festas de fim de ano e no carnaval. Se tivéssemos corrido na frente pela compra de vacinas estrangeiras. Se não fôssemos campeões de negacionismo. Se não preferíssemos apostar em medicamentos sem eficácia comprovada pela maioria da comunidade científica. Se nossas autoridades dessem bons exemplos sempre usando máscaras e passando mensagens de proteção e higiene. Se não errássemos no básico mandando vacinas do Amazonas ao Amapá por falha de logística. Se não minimizássemos o perigo com tanta prepotência.

      As imagens de gente nas praias me desconcertam. Que desespero é esse por praia? Não dá para segurar um pouco? Entre o risco de pegar uma doença grave, transmissível a outras, abarrotando hospitais, e o prazer de um banho de mar ou de uma tarde na areia, a pessoa fica com o segundo. O que é isso? Narcisismo? Hedonismo? Egoísmo? Irresponsabilidade? Estupidez? Ignorância? Aquelas hordas sacudindo os quadris em lugares como o Rio de Janeiro, sem qualquer proteção, indiferentes ao vírus, indicam o que mesmo? Que a humanidade é irracional? Não deveria precisar polícia nem fiscalização nesta luta. A consciência deveria bastar. Ficar em casa, quando se pode, é questão de inteligência. Todo trabalho é essencial para quem vive dele. Alguns setores, porém, podem ser secundários para os consumidores por algum tempo. O Estado deve ajudar essas áreas combalidas para que resistam.

      Ver pessoas feito um rebanho conduzidas para casa e retornando assim que a repressão se retira é desolador. Que gente é essa que não se importa consigo e muito menos com os outros? Dá raiva, tristeza, desespero. Uma coisa é sair de casa por necessidade. Outra, bem outra, sair para a balada ou para comprar uma bugiganga barata ou cara que pode esperar. O heroísmo do pessoal da saúde me comove. O risco corrido por empregados de supermercados me impressiona. A coragem dos motoboys me fascina. Enquanto todos esses e outros se expõem por falta de opção e por nós, a turma da curtição se esbalda. Não podem ficar parados. Inventam desculpas para fazer o inaceitável. E ainda podem pegar o lugar de enfermeiros ou de caixas de supermercado numa UTI.


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Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895