Reabrir ou esperar
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Reabrir ou esperar

Países ousam dar o primeiro passo

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      E agora? Existem cem projetos de vacina contra o coronavírus em andamento no mundo. Oito estão bem adiantados. Dois – a vacina de Oxford, em fase dois de testes com humanos, e a vacina chinesa, em fase três – despontam como possibilidades até o final deste ano. Especialistas duvidam que essa velocidade possa trazer bons resultados. Em outra linha de ataque, japoneses isolaram uma molécula que pode destruir o vírus. Belgas localizaram um anticorpo de uma lhama que neutraliza esse inimigo invisível. Como, porém, passar tudo isso rapidamente das experiências in vitro ou com animais para homens?

 

Se a vacina e os remédios exigem tempo, a economia tem pressa. A França começou o processo de reabertura. Depois de achatar a curva de contaminações e óbitos, foram 74 no último domingo, o país decidiu cumprir a data fixada para encerrar a quarentena. A tendência na Europa é de flexibilização. Os países da Europa central foram menos afetados. Já a Suécia fez a aposta de não confinar. Teve mais mortes do que seus vizinhos. Nova Zelândia e Suécia jogaram tudo em lances opostos. A Nova Zelândia confinou cedo e radicalmente. Tem um número muito pequeno de mortes. Estudiosos europeus sugerem que só o tempo dirá quem tem razão. Se a vacina vier logo, a Nova Zelândia ganha. Se demorar, a vitória poderá ser dos suecos, que juram já ter perto de um quarto da população imunizada. Por enquanto, na Europa, quem comemora é a Áustria.

A estratégia do governador gaúcho Eduardo Leite, dividindo o Estado em regiões com diferentes bandeiras e gravidades, é semelhante à da França. O grau de reabertura, contudo, é diferente. Se, por um lado, há um frenesi com o retorno às ruas e ao trabalho entre os franceses, por outro lado, há uma enorme angústia: e se a contaminação e as mortes dispararem novamente? Os europeus estão conscientes de que até agora a única proteção realmente eficaz contra o coronavírus é o isolamento social radical associado a medidas de higiene como lavar as mãos com sabão e usar álcool gel. Diante disso, abrir é dar um salto no escuro. Pagar para ver. Por que não esperar mais? Para não explodir o país?

Depois de 55 dias de reclusão os franceses queriam sair. As críticas ao presidente Emmanuel Macron começavam a avolumar-se. O problema é que as notícias vindas da Coreia do Sul, onde as contaminações voltaram a crescer, e o surgimento de um novo caso em Wuhan, na China, acendeu a luz amarela. Ou vermelha. Todos estão tateando, experimentando, arriscando, tentando encontrar uma saída razoável e segura. Ninguém tem certeza de muita coisa. Os mais desatinados gostariam de ver todo mundo nas ruas para que a tal imunidade do rebanho fosse logo alcançada. Quem pensa assim, não parece ser bom de cálculo ou não se preocupa com o número de mortes projetáveis. Entramos noutra fase sem saber se a anterior foi superada.

No Brasil, perguntamos todo dia: estamos no pico? Longe dele? Não sabemos. Quem dá as cartas é o vírus. O inverno desponta como um perigo a mais. A Europa reabre na primavera e com o verão no horizonte. Quase 900 mortos num dia indicam que estamos no meio do pesadelo e que toda reabertura só é uma demonstração da ânsia improvável de voltar à normalidade imediatamente.