Realismo fantástico nacional

Realismo fantástico nacional

Com a morte à espreita

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      Quando lhe costuraram a boca ele chorou. As lágrimas que rolaram pelo seu rosto pálido, abrindo sulcos profundos, eram ácidas como a sua língua. Melhor dizendo, eram agridoces como a sua língua. Podia ser melífluo ou vulcânico. Não amaldiçoou. Pensou no silêncio que marcaria a sua vida dali em diante. Falaria com os dedos, com os olhos, com a alma. Podiam ter-lhe arrancado os olhos, cortado os dedos, tapado os ouvidos (era chamado de orelhão por ouvir todo mundo). Em todos os casos, sofreria. Costuraram a sua boca com um fio de náilon muito fino. Vivia no bairro La Boca, imitação do famoso reduto de Buenos Aires, em Solidão. Torcia, de longe, pelo River.

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      Quando lhe secaram as lágrimas, por meio de um procedimento químico revolucionário, ele chorou com as mãos. Consideravam que suas lágrimas eram provocações indecorosas. Se não sorria nem aplaudia, que não chorasse tampouco. A vida devia seguir o seu curso e ele não podia servir de mau exemplo. Morava em Silêncio e cabia-lhe ser patriota. Viram-no ao amanhecer apalpando o rosto árido. Explicaram num comunicado que não lhe haviam pedido nada excepcional. Sem a devida colaboração, certamente por falta de compreensão da gravidade do momento, tomaram as medidas necessárias para que não contaminasse outros com lágrimas indevidas. Enviaram-lhe um estoque de colírio.

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      Quando lhe cortaram as mãos, numa sexta-feira ensolarada, avisaram que a culpa era só dele. Nunca havia parado de acenar. Vivia em Remédios e acreditava na salvação pelos gestos. Tudo o que lhe haviam pedido, explicaram complacentemente, era que controlasse os seus dedos inquietos. Disseram-lhe que parasse de ouvir Victor Jara e se concentrasse em algo mais útil. O tempo, porém, era vasto como as madrugadas e ele não sabia mais separar o útil dos abismos do amanhecer. Quando o sol lambia as janelas ele acenava aos passantes.

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      Quando lhe arrancaram os olhos, numa noite de chuva, argumentaram que era para o seu bem. Via demais, mesmo com sua miopia, e isso o impedia de enxergar somente o essencial. Além disso, justificaram, eram castanhos. Comuns demais. Morava em Sombras e passava os seus dias espiando pelas janelas a rua onde vagavam seres extraviados. Era preciso que se concentrasse em algo mais interior e construtivo. Nessa época, todas as suas construções eram miragens.

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      Quando lhe tiraram a alma, com uma máquina inventada para extirpar inconveniências, ele já não se revoltou. Estava em Reminiscências lendo poesia e imaginando a vida depois da morte. Mostraram-lhe que era o melhor para ele nas condições em que se encontrava, que não se deram o trabalho de explicar quais eram. O fundamental é que não ficariam cicatrizes nem frestas pelas quais entrar o vento da noite. Poderia conservar intacto o seu cérebro, sujeito a eventuais ressonâncias magnéticas preventivas. O tempo havia passado e sobravam-lhe alguns anos para contemplar o infinito.

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      Quando o vírus chegou lhe disseram que não era tão grave assim. Ele levou ontem Alfredo Bosi, grande crítico literário brasileiro. Num só dia foram contadas 4211 mortes. Já somos todos sobreviventes.


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Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895