Safados engordam fundo eleitoral
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Safados engordam fundo eleitoral

Parlamentares tiraram recursos da saúde, da educação e da infraestrutura

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 Normalmente eu sou suave. Uma amiga até me definiu assim: “Mais lady do que eu”. Detesto levantar a voz. Quando o faço, fico deprimido. Usar palavras insultuosas me repugna. Sou um brasileiro cordial. Ajo com o coração. Isso justifica os poucos impulsos que me arrancam da suavidade e me fazem exclamar: safados! De quem estou falando? Dos congressistas que tiraram dinheiro da saúde, da educação e do programa de habitação popular para engordar o já polpudo fundo eleitoral, que saltará de R$ 2 bilhões para incríveis R$ 3.8 bilhões.

      Safados! Democracia tem custo. É melhor, com propagandas baratas, o Estado pagar as campanhas do que elas serem vendidas a empresas privadas, que sempre apresentam a conta aos eleitos e não aceitam desculpas. Colocar quase quatro bilhões nas campanhas municipais de 2020 é jogar nosso dinheiro fora. Tirar R$ 500 milhões da saúde e R$ 380 milhões da educação é canalhice pura. Um negócio desses deveria resultar em cassação de mandato por quebra de decoro. É indecente, vergonhoso, pusilânime, mais algum adjetivo aí? Certo de que “não dá nada” os senhores parlamentares capturaram mais um naco dos nossos impostos para os seus interesses pessoais e partidários.

      Para alimentar a bufunfa do fundo marqueteiro, os eleitos que nem sempre nos representam abocanharam R$ 380 milhões destinados a casa própria e saneamento básico. Meu lado obscuro manifesta-se aos berros: que cambada! O senador Flávio Bolsonaro diz que votou a favor desse esbulho por engano. Vai, me engana, que eu gosto, diz o outro. E o outro somos nós, também chamados de otários, trouxas, bobos da corte, etc. O jornal Folha de S. Paulo resumiu essa farsa assim: “A medida teve o apoio de 13 partidos: PP, MDB, PTB, PT, PSL, PL, PSD, PSB, Republicanos, PSDB, PDT, DEM e Solidariedade. Eles representam 430 dos 513 deputados e 62 dos 81 senadores. Podemos, Cidadania, PSOL e Novo foram contra o aumento, mas não têm força política para barrar a investida”. E assim se afunda a política em nosso cotidiano amargo.

      Ganha um ano em Brasília, com direito a frequentar o Congresso Nacional todos os dias em turno integral, quem for capaz de apresentar um só argumento racional, moral e desinteressado capaz de justificar essa bandalheira. Claro que conheço os discursos em favor da jogada, inclusive os mais sentidos e chorosos, do tipo estão criminalizando a política, desacreditando a democracia, jogando os políticos contra a opinião pública, mídia nojenta, fazendo demagogia por desconhecimento da realidade objetiva de uma campanha e por aí vai a oratória barata de sempre e todo dia. Há pouco, a ala bolsonarista brigou com o dono do PSL pelo controle da grana dos fundos partidário e eleitoral.

      Primeiro os nobres parlamentares aprovam reformas para conter os gastos do Estado, sacrificando, por exemplo, a aposentadoria da plebe, depois se concedem um generoso aumento do fundo para campanha. Como perdi a compostura, só me resta fechar mantendo o nível: ah, vão se catar! Haja paciência para tamanha safadeza. Desculpem a sinceridade.

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De manhã, impávida a ex-juíza e então senadora Selma Arruda (Podemos-MT) trabalhava pela volta da prisão depois da condenação em segunda instância, em guerra contra a corrupcão e a impunidade. De tarde, era cassada pelo TSE por crime de caixa dois na eleição para o Senado. O Podemos, campeão da ética, vai expulsá-la ou vai fazer como os outros, que passam pano para seus eleitos de estimação?