Sem política só há autoritarismo
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Sem política só há autoritarismo

Democracia rima com politilização

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      O ministro do STF Gilmar Mendes, em entrevista ao Esfera Pública, da Rádio Guaíba, disse que o autoritarismo bolsonarista é filho da Lava Jato. Estimulou-se o ódio à política. Abriu-se caminho para a miragem de uma "nova política" sem os elementos da política: negociação, debate, divergência, representação.

As sucessivas crises brasileiras ensinam quem quiser aprender. A primeira lição é de uma simplicidade constrangedora: sem política não há sociedade democrática. Sem democracia, não há liberdade. Política faz-se com pessoas, ideias e partidos. A democracia tem custo. Toda tentativa de atalho, encurtando o espaço da política, é um caminho reto para o autoritarismo. A saída não está em restringir a política, mas em ampliar o espaço de participação de todos. Política nos tempos atuais precisa rimar com transparência, coerência, justiça e igualdade.

      Não existe razão para que os gastos no cartão corporativo da presidência da República não sejam do conhecimento de todos. Também não há justificativo para que legislativo, judiciário e ministério público recebam a sua parte do bolo cobrado dos contribuintes, os famosos duodécimos, conforme a previsão orçamentária (uma expectativa) e não de acordo com a arrecadação real. Tampouco, à luz do interesse público rigoroso, é aceitável que existam sigilos protegendo empresas que ganham isenções fiscais. Reuniões ministeriais deveriam ser passadas ao vivo em alguma televisão pública ou em canal no youtube. Os segredos de Estado, salvo exceções de absoluta segurança, são malandragens dos poderosos. Só se enfrentam essas distorções com muito mais política.

      Max Weber mostrou que se a política não for remunerada pode se tornar privilégio dos ricos. Não deixa de ser curioso que milionários façam com frequência a defesa da política amadora. O problema não está em acumular mandatos, mas em usar esses mandatos a serviço de quem. Jair Bolsonaro teve sete mandatos como deputado. Qual o seu legado? Se estamos atolados, mergulhados na descrença, não é por excesso de política. É por carência. Participamos pouco, elegemos mal, não fiscalizamos nossos representantes, só pensamos em entretenimentos fáceis, abrimos mão de cuidar das nossas cidades e do nosso país. Quando o bicho pega, apostamos num salvador da pátria qualquer.

      Por bravata ou ódio, somos capazes de escolher o mais extremista, deixando de lado várias opções mais ponderadas, ainda que não ideais. Todo discurso contra a política é um discurso contra a política democrática. É fundamental diminuir os gastos exagerados dos nossos eleitos. Isso nada tem a ver com fechar o Senado ou reduzir a Câmara dos Deputados à metade. Semear o ódio à política é uma maneira de fazer política para poucos. Defender que tudo seja técnico é encobrir um ensinamento filosófico consagrado: a essência da técnica não é técnica. Pode-se discutir a validade dessa afirmação de conhecida assinatura. Difícil é negar que fora da política só existe a política do mando.

      O Brasil não está bem. A nossa situação resulta de uma história de exclusão, desigualdade, analfabetismo, escravidão e minuciosa preparação da maioria para o desprezo pela política. Uma das formas modernas de produzir horror à política é a sua criminalização. Corruptos devem ser punidos. Considerar todo político um corrupto em potencial é um caminho seguro para um regime autoritário e corrupto. Só tem um jeito: todo mundo fazer a sua parte na política do seu lugar.