Sequelas da Covid

Sequelas da Covid

Sete meses de combate

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      Fui dos primeiros a pegar covid-19 no Rio Grande do Sul. Mal abriu a temporada do coronavírus, em março, e eu já estava infectado. Peguei seis dias de hospitalização. Tive dor de garganta, pneumonia e dificuldade para falar. Durante a internação, na PUCRS, passei dos 38 de febre e vi minha saturação de oxigênio cair a 93, o que, na minha idade, é baixo. Como não sabia que isso era ruim, ouvia e não me abalava. Pelo celular, mantive contato com amigos e familiares. Não fui entubado, não estive em UTI e não tive falta de ar. Mas fui perdendo a voz. Ao voltar para casa, saía um fiapo. Tive dificuldade para comer. Só conseguia colocar bem pouquinha comida na boca, mastigava muito devagar e sentia ânsia de vômito.

Nunca perdi o olfato. Eis tudo? Foi isso e se acabou?

      Não. Em casa, passada uma semana da alta, comecei a ter sequelas. Primeiro, uma leve sensação de falta de ar. Depois, dor nas costas. Um dia, apareceu uma erupção na virilha. Controlava uma coisa, surgia outra. A voz saía aos saltos, aos solavancos, soltando guinchos de pneu furando ou de freio a ar. Precisei de otorrino, de pneumologista, de infectologista, de atendimento médico contínuo. Tive a alegria de encontrar médicos dedicados e competentes. Fiz tratamento com bombinha para asma, novidade absoluta na minha vida, combati um refluxo gastrointestinal, passei a ter acompanhamento de uma fonoaudióloga, oscilei entre um pouco de depressão e ansiedade, comecei a sentir fraqueza nas pernas, precisei fazer ecografia e mais exames de sangue. Confesso que me deu um enorme desânimo.

      Olhava os dias cinzas e sonhava com as manhãs de setembro, que chegaram e passaram quase sem sol. Aguentei o tranco com ajuda dos médicos Fabiano Ramos, Gilberto Schwartsmann, Giuliano Scornavacca, Bernard Beraldim, do mais novo velho amigo, Leandro Minozzo, e da fono Arlete dos Santos. A Cláudia segurou todos desânimos e tristezas do ano, que não foram poucos. A Tieta transferiu o seu savoir-faire da Lancheria do Parque para a nossa casa e nos ajudou a enfrentar o mau tempo com variedade gastronômica. Foram sete meses com algum sintoma, alguma fragilidade, muito medo. Cheguei a pensar que não me livraria mais das sequelas. Uma noite, caí no choro. Eu que raramente choro. Estava no limite.

      Quando já não tinha mais esperanças, cansado de lutar, começou a passar. A dor nas costas foi embora. O tempo de uso de medicamentos previsto venceu. Parei tudo. A falta de ar não se manifestou mais. A voz soltou-se. Passei a caminhar todos os dias para fortalecer as pernas. Quando recebi, de surpresa, uma homenagem em vídeo de alunos e colegas da PUCRS (está no meu canal no Youtube), senti a primavera chegar. Não dou um passo fora de casa sem máscara. Sinto calafrios quando ouço alguém relativizar o perigo do vírus. Tenho medo de reinfecção. É raro, mas existe. Só viajarei depois que a vacina estiver na praça. Deposito todas as minhas esperanças na ciência. Falar de sequelas quando muitos estavam morrendo era quase uma demasia. Só agora é que a sensação de estar doente passou. Espero que não volte. Morro de medo do vírus. Sou marica. Inimigo assim não se combate com pólvora, mas com medicina, ciência, conhecimento e racionalidade.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895