Ser estoico

Ser estoico

Saber não sofrer

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    Há ideias e filosofias que voltam depois de algum tempo. Por exemplo, alguns séculos. Se duvidar, milênios. O estoicismo, segundo li, está de volta. Aplaudo. Seria a maneira mais adequada de lidar mentalmente com a pandemia. Há novos seguidores de Atenas a Aracaju, onde o professor Antônio Dinucci, da Universidade Federal de Sergipe, trabalha as ideias dos estoicos e dissemina a prática dos exercícios necessários ao bom uso dessa perspectiva que prega “não se abalar diante dos infortúnios”. Os antigos eram assim: ensinavam que para ser feliz bastava ser equilibrado, não cometer excessos, suportar a dor, controlar os instintos, dominar os desejos, jugular as paixões, ser racional, privilegiar a ponderação, enfim, todas essas coisas fáceis que só dependem da boa vontade de cada um.
    O estoicismo nasceu na Grécia e conquistou Roma. Marco Aurélio, filósofo que nas horas vagas dava expediente como imperador romano, está de novo na lista dos mais vendidos com seu best-seller “Meditações”. O Globo resumiu assim o retorno do estoicismo: “No Brasil, a estreante editora Somos Livros acaba de lançar ‘O pequeno manual estoico’, de Jonas Salzgerber, e ‘Ser estoico: eterno aprendiz’, de Ward Farnsworth. A Intrínseca publicou ‘A vida dos estoicos’, novo livro de Ryan Holiday, de ‘O obstáculo é o caminho’, outro título influente do ‘estoicismo moderno’. No mês que vem, a Penguin-Companhia lança um volume com três diálogos de Sêneca: ‘Sobre a vida feliz’, ‘Sobre a providência’ e ‘Sobre o ócio’”. Se a Penguin está na parada não há infortúnio. É sucesso sólido e certo.
    Falei disso em “Ser feliz é tudo que se quer”: os estoicos radicalizariam as coisas. A felicidade estaria na virtude. E no autocontrole absoluto. O prazer seria o inimigo a combater. Adeptos de uma racionalidade universal, os estoicos pregariam a contenção dos sentimentos, a disciplina rigorosa e a capacidade de resistir ao sofrimento. Zenão de Cítio (363-263 a.C.) é o pai da criança. A felicidade estaria na negação das paixões. Outra designação para os desejos que perturbam. As paixões enlouquem. De resto, para que lutar e sofrer pelo que não depende da nossa vontade? O homem estoico é tão racional e prático que só pode ser um super-homem. Estoicismo vem do pórtico pintado em Atenas onde Zenão filosofava. Felicidade ou domesticação? O que ensinavam esses gregos, o possível e desejável ou o impossível e árido? A contenção. O menos é muito mais.
Sêneca também está na moda. O ócio é fundamental. O verdadeiro ócio: “Somente são ociosos os que estão disponíveis para a sabedoria”. Há, porém, quem mil passatempos para refletir. Sêneca ironizava: “Qual não prefere ser bem penteado a ser honesto?” Corre-se para todo lado e não se percebe que essa azáfama desvia do essencial: “Nunca faltarão motivos de inquietação, quer na prosperidade, quer na miséria: a vida será dilacerada entre as ocupações: o ócio sempre desejado, nunca é obtido”. Sêneca incentiva: larga essas bobagens. Estuda. Reflete. Descobre o prazer tranquilo da sabedoria, a paz de espírito do sábio. Zenão mudou de vida depois de ouvir uma palestra de Sócrates. Hoje, faria pilates, musculação e filosofaria.

 


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