Ser humano

Ser humano

O que isso ainda significa?

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Volto ao tema. Pergunto novamente. Insisto. Quem é o homem? Eis a questão que desafia o mundo. Quando se diz desafia, termo contundente, da ordem das palavras cortantes, induz-se a pensar que o mundo para e pensa sobre uma solução. Essa maneira de apresentar a questão peca por ser excessivamente aproximativa. Grande parte da humanidade jamais pensa sobre o humano. Viver é um dado em si para muitos e nem sempre se recorre a um “manual de utilização”. A tarefa de pensar o humano é assumida por alguns representantes da espécie humana. Alguns o fazem como tarefa profissional. Outros, num universo de possíveis jamais definido ou definível, por curiosidade. O que pode ser mais interessante do que saber quem se é e até quando?

Durante muito tempo, na escala flexível do tempo da reflexão, o homem tomou-se por medidas de todas as coisas. Sem se ver como coisa. Essa percepção de si como centro do universo não estava fundamentada num princípio ético. Era simplesmente uma premissa que se amparava em si mesma. Afinal, o homem olhava em torno e não via quem pudesse contra-argumentar. O direito dos outros – dos animais, das coisas, da natureza – só poderia ser defendido pelo próprio homem. De certo modo, sem explicitação, predominava esta ideia: “comunico, logo domino”. Sujeito de um pensamento sem se ver como objeto, para além da autorreflexão, o humano por demais humano e satisfeito consigo mesmo reinou como um déspota quase esclarecido. Pretendia ver tudo. Não via que a sua condição excedia a sua possibilidade de dominação.

      A longa trajetória do ser humano da animalidade para a humanidade tem muito de epopeia, de mistério, de acaso e de circunstâncias que seria maravilhoso reconstruir com ajuda de algum aparelho ainda não inventado de captação do passado. Na caminhada, que se pode chamar de bem-sucedida, apesar dos percalços, das perdas, dos horrores e do medo de não sobreviver, o ser humano atribui-se muitos significados. A todos, porém, em algum momento, tratou de invalidar. O ser humano constrói, descontrói, reconstrói e esvazia-se todo tempo. Por que essa necessidade de questionar o que já funcionou? Basta um significado ser aceito para que imediatamente comece a ser atacado.

      O que comunica o homem? O que diz o humano que não se ouve no não humano? Pode-se perguntar ao infinito. Não seria absurdo sustentar que existem, grosseiramente falando, dois eixos de abordagem dos fenômenos: o eixo das perguntas e o eixo das respostas. Essas duas vertentes estão obviamente interligadas. A simples enunciação de uma pergunta já dá algumas respostas. O homem já não é o Homem. O estatuto do humano não garante mais qualquer privilégio. A humanidade não pode mais se ver no espelho da natureza como a espécie eleita. Na escala natural, medida no longuíssimo prazo, cabe-lhe o mesmo quinhão destinado às demais. Se o humano pode conceber uma transcendência, não pode impedir as transformações do universo que o afetam. Ser humano é poder sair do seu lugar de fala e se colocar no lugar do outro.

 


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Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895