Social e socialites

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Conversas palacianas sobre a vida nas ruas

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Numa conversa palaciana as socialites Bia Dória, esposa do governador de São Paulo, João Dória Jr., e Val Marchiori pontificaram sobre pessoas que vivem nas ruas. Dona Bia filosofou: "Não é correto chegar na pessoa que está na rua e dar marmita, porque a pessoa tem que se conscientizar que ela tem que sair da rua. A rua hoje é um atrativo, as pessoas gostam de ficar na rua". Val não encontrou reparos a fazer. A conversa viralizou nas redes sociais. Bia deu a justificativa de sempre: a sua fala teria sido tirada de contexto. Val distribuiu comida para moradores de rua. Segundo as distintas madames, as pessoas que moram nas ruas não querem assumir responsabilidades.

Nada como condenar a “preguiça” alheia usufruindo das delícias do topo da pirâmide. Olhar para baixo e pensar que essa gente toda na rua prefere o “prazer” da vida “boa” sem trabalhar e sem encargos para suportar. AS frases das elegantes senhoras são repetidas diariamente por muita gente que se acha justa, rigorosa e sem preconceitos. Há quem considere que o “Bolsa Família” serve para sustentar “vagabundos” e que mulheres ganham mais filhos só para receber mais dinheiro do governo. A assistência social produziria “irresponsáveis” e “sem motivação” para o batente. Quem pode mesmo crer que isso é estatisticamente significativo? Quem constrói essas narrativas?

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, absolveu uma mulher que roubou uma picanha: “Não é razoável que o Direito Penal e todo o aparelho do estado-polícia e do estado-juiz movimentem-se no sentido de atribuir relevância à hipótese de furto de uma peça de picanha da marca Naturafrig, três tabletes de caldo da marca Arisco, sendo um de carne e dois de frango, e uma peça de queijo muçarela da marca Porto Alegre, avaliados em R$ 135,73”. Bia e Val certamente não concordam com o magistrado. Talvez aceitassem atenuante por uma carne de segunda. Já a ministra Rosa Weber, também do STF, negou habeas corpus a uma jovem que furtou dois xampus de R$ 10. Talvez as amigas Bia e Val exclamassem: nossa, mas é um artigo de primeira necessidade!

Acostumado a ser criticado, Gilmar Mendes vem apanhando mais uma vez por sua decisão considerada por muitos como uma liberação para o crime. Quando o social passa a ser analisado por socialites, numa revolução hermenêutica, entra-se em nova etapa, do liberalismo ao neoliberalismo, do liberalismo social ao capitalismo das socialites. Val Marchiori foi contemplada, faz algum tempo, com empréstimo do Banco do Brasil aprovado por Aldemir Bendine, o mesmo que depois foi hospedado, por outros motivos, numa cadeia. Na animada conversa com a amiga primeira-dama paulista, Val colaborou com esta observação: "Eles não querem sair da rua porque no abrigo eles têm horário para entrar, têm responsabilidades, limpeza, e eles não querem, né, Bia”. Vida de morador de rua é “fácil”. Dura é a vida de uma socialite com todas as suas responsabilidades, compromissos e conversas sociológicas. Não?


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