Stiglitz e a desigualdade
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Stiglitz e a desigualdade

Nobel da economia desmonta o pibismo

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Gosto de ler economistas, especialmente os que ganharam o Nobel. Paul Krugman e Joseph Stiglitz são os meus preferidos. Thomas Piketty, que já devia ter recebido o Nobel, é outro cuja prosa me fascina. Li um livro de Stiglitz, “O preço da desigualdade” (Bertrand), que me deixou de cabeça virada. Na semana passada, li uma entrevista dada por ele ao UOL. Como observador acurado do cotidiano, Stiglitz mandou a real sobre as crises na América do Sul: A surpresa foi que o mal-estar tenha demorado tanto para se manifestar, principalmente no Chile. Porque o Chile é um dos países que sempre se destacou nas estatísticas da OCDE com um dos mais altos níveis de desigualdade”.

      Eis o ponto que alguns, cegos de ideologia, insistem em não enxergar. Feito papagaios, falavam do PIB do Chile. Stiglitz joga água na fervura dos “pibistas”: “O PIB pode subir, mas todo o dinheiro pode ser destinado a grandes empresários, e a maioria dos americanos pode morrer por não ter acesso adequado a cuidados médicos ou alimentos. O PIB é bom, mas não reflete o que os cidadãos comuns vivenciam, não reflete a insegurança, que é uma parte tão importante do bem-estar. Além disso, hoje estamos preocupados com a sustentabilidade: o PIB não mede se o crescimento é sustentável”. O PIB não captura a vida real.

      O problema da desigualdade persiste: “Historicamente, a América tem um alto nível de desigualdade. Em alguns países, houve avanços na redução da desigualdade por um longo período. O Brasil, com os governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula, e a Argentina, com os Kirchner, tiveram reduções significativas na desigualdade, e também a Bolívia. Mas o nível de desigualdades ainda é muito alto”. Não enfrentar esse dilema significa empurrar o abismo com a barriga. Um dia, explode. Se o mercado só quer o seu, um dia recebe a conta.

      Por que os países, como a Argentina, dão calote? Para Stiglitz, a resposta é óbvia: “Os credores frequentemente impõem taxas de juros excessivamente altas”. Quer ganhar altos juros, não vai receber: “Com taxas de juros de 9%, sua dívida dobra a cada oito anos. E há toda uma teoria que explica que, se você cobrar altas taxas de juros, terá uma alta probabilidade de inadimplência. Mas, se você cobra taxas de juros baixas, tem uma baixa probabilidade de inadimplência”. Faz sentido.

      A ideologia e a ganância fazem o mercado dar grandes saltos no escuro: “Macri apostou que o mercado de capitais estava cego. Cada empréstimo tem um devedor e um credor. E os credores foram burros de emprestar essa quantia de dinheiro. Eles apostaram, da mesma maneira que Macri, que haveria uma avalanche de investimentos estrangeiros na Argentina que levariam ao crescimento econômico, o que permitiria pagar a dívida. Não havia provas, todos seguiram cegamente os discursos de Macri”. Estavam maravilhados com seu credo neoliberal.

      Para entender a América do Sul é preciso ler Gabriel García Márquez e economistas heterodoxos. Eles nos ensinam sobre o absurdo da existência. Stiglitz citando Robert Kennedy remete ao realismo fantástico: “O PIB mede tudo, exceto o que faz a vida valer a pena". Pibistas são como neotáticos no futebol: adorariam jogar com 11 volantes (jogadores que se caracterizam pelo de marcação) improvisados em todas as funções por acreditar que eles devem ser capazes de marcar, criar e fazer gols, assim como o PIB deve explicar tudo e garantir a paz, a esperança e o sonho mesmo se, nas ruas, a vida se revela um pesadelo.