Tempo de partidas

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Flavio Porcello era um homem gentil

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    Há pessoas que passam pela vida espalhando simpatia. Flávio Porcello foi assim. Jornalista e professor, primeiro na Faculdade de Comunicação da PUCRS e depois na UFRGS, conquistava todo mundo com seu jeito bonachão. Profissional competente, destacou-se em jornal e na televisão. Morreu, no último domingo, de complicações da Covid-19, mesmo tendo recebido duas doses da vacina. Tinha comorbidades. Fizemos boas parcerias na televisão universitária e nas jornadas acadêmicas. Nosso último encontro foi uma banca de doutorado remota na qual eu, infectado por uma bactéria, tive um mal-estar e desmaiei. Só tive tempo de desligar o microfone e sair do campo de visão da câmera. Porcello percebeu que algo estranho havia acontecido. Era um cara antenado, sensível, cheio de empatia, um parceiro de bons combates.
No Facebook, Flávio Dutra, outro jornalista da velha guarda que espalha humor por onde passa, sintetizou com perfeição: “Tínhamos mais em comum, o Porcello e eu, do que o nome Flávio Antônio, a vocação jornalística, a torcida pelo Grêmio e a preferência pela cerveja bem gelada. Nossas afinidades datam dos anos 70 do século passado, quando fomos contemporâneos na Fabico, eu um ou dois anos mais adiantado, mas nos formamos juntos em 1977; frequentamos os setores da dupla Grenal, ele pela Folha da Manhã eu pela Folha da Tarde, participamos das diretorias renovadoras da Associação dos Cronistas Esportivos, depois nos reencontramos na TVE em duas oportunidades e passamos a conviver na Confraria 1523 e lá se vão mais de 20 anos de confraternizações e mais de 45 de relação com o querido amigo que perdemos para essa maldita Covid, contra a qual lutou bravamente”. Um homem de afetos.
Flávio Dutra arrematou: “O Flávio Antônio Porcello era múltiplo como profissional, um baita repórter, bom de texto e de improviso; um âncora seguro, o diretor de tv criativo, pesquisador e professor reconhecido por seus iguais e festejado por seus pupilos, e sempre em busca de novos horizontes na academia, mas para nós, seus confrades de pelo menos uma vez por mês no Bar do Beto, o que vai ficar é o parceiro animado e participativo nos bons momentos e o amigo solidário a quem precisava de apoio. Era o nosso Polenta, o pai amoroso da Paulinha, que herdou a vocação jornalística dele”. Fará muita falta.
Nas bancas de mestrado e doutorado ele sabia ser crítico, apontando falhas, e generoso com rigor, destacando acertos e pontos fortes, sem jamais subir a voz ou humilhar o examinado. Sabia muito do seu campo, a televisão, e não fazia qualquer questão de ostentar. Era o que se chama de gente boa, do bem, um sujeito que preferia cooperar a competir. Era mais velho e mais experiente do que, mas chegou a ser meu aluno no doutorado. Aceitou esse papel com tranquilidade. Nunca saímos para jantar nem fomos um na casa do outro. Quando nos encontrávamos, porém, a sensação era de alegria recíproca. Não há outra expressão a usar que não seja o clichê sincero: grande perda.

 


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