Todo dia ele faz tudo sempre igual
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Todo dia ele faz tudo sempre igual

Paródia de uma canção de Chico Buarque

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Todo dia ele faz tudo sempre igual. T

odo dia ele faz tudo sempre errado e acha que é normal. Nos sacode às seis horas da manhã com uma bomba da sua incontinência verbal. E nos apavora com a sua boca de capitão. Num dia, ataca a ciência e demite o cientista por lhe contar o que não queria ouvir. No outro, haja paciência, elogia torturador. No terceiro, sem a menor decência, declara que não há fome no Brasil. Todo dia ele diz que vai se ocupar de nós e essas coisas que diz todo militar. Diz que está nos esperando em 2022 e nos acena com suas mãos de rasgar jornal e de assinar decretos ilegais.

Todo dia nós só pensamos em nos mandar.

Meio-dia, nós só pensamos em Portugal. Depois pensamos no dinheiro para ganhar e nos calamos como quem acredita que vai dar. Seis da tarde, para sair no Jornal Nacional, ele chama o Ustra de herói nacional e jura que não está louco de atar. E nos pega na saída com vontade de sumir. E diz que ama o país e essas coisas que diz todo político para enganar. E nos assusta com sua boca incontida de soltar palavrões, preconceitos e retirar direitos com a facilidade de quem admira ditador. Num dia, defende agrotóxicos para vender. No outro, ainda mais tóxico, manda desmatar a Amazônia a varrer. Num dia defende o nepotismo. No outro, combate o comunismo montado em seu cavalo chamado Passado.

Todo dia ele nos pede para ficar e promete que tudo vai mudar.

Meia-noite, ele jura amor à pátria e nos tortura de quase sufocar. E nos apavora com seus olhos vermelhos da ditadura militar. Todo dia ele faz tudo sempre igual, tudo sempre errado, tudo combinado, mas diz que não é estratégia, que é seu jeito de ser e de governar. Nos sacode às seis horas da manhã como se fosse um quartel com um sorriso de general de Pinochet. E nos atucana com sua boca de semear más notícias em geral. Todo dia nós só pensamos em dar o fora ou em saber quando é que ele vai cair. Fazemos contas e mais contas para saber quando ele vai sair. E dormimos com uma dose de rivotril.

Todo dia, a gente canta que ainda é cedo para desesperar e brinca de acreditar que não há nada demais e tenta até virar de lado e dormir sem chorar. Todo dia ele faz questão de recomeçar. E conta vitórias, planeja reformas, exulta e insulta com a mesma inclemência, chama golpe de revolução, achincalha gay de malandro e entoa o velho refrão: Brasil, ame-o ou deixe-o. Avante, Brasil, salve a nação. Todo dia a gente só pensa num jeito de fugir enquanto ele corta mais verbas da educação.

Todo dia ele nos sacode com o espantalho da Venezuela e nos manda para Cuba se não estamos contentes. E garante que vai nos livrar dos vermelhos, acabar com os aparelhos, revirar nossos espelhos, reinventar nosso futuro, tirar o gigante do escuro. Assim vai.

Todo dia ele faz tudo sempre igual, bate continência para o Trump, faz declarações disparatadas, supera o dia anterior com algo mais radical. E a gente suspira, padece, decresce e só pensa em poder partir. Mas partir para onde, José? Fuga não há mais. Todo dia ele faz tudo sempre igual. Ai, ai.