Juremir Machado da Silva

Uma trilogia trabalhista



Escrevi, sem ter planejado, o que o jornalista Carlos Bastos chamou de “trilogia trabalhista”: “Getúlio” (Record, 2004), “Vozes da Legalidade” (no qual Brizola tem o papel principal, Sulina, 2011) e Jango, a vida e a morte no exílio” (L&PM, 2013). O papel do Rio Grande do Sul na história brasileira do século XX está nesses três livros. Em 2014, mais do que ano da Copa do Mundo no Brasil e de eleições presidenciais, será ano de pensar nesses três homens – Getúlio, Brizola e Jango – que estremeceram o país, cada do seu jeito e com seus trunfos, a ponto de terem se tornado inesquecíveis.

Em 2014, o primeiro ato será a rememoração dos 50 anos do golpe midiático-civil militar, desfechado em 31 de março, que derrubou Jango do poder. Nada é mais importante do que refletir sobre isso e do que provar se Jango foi ou não assassinado. Qualquer outra questão é menor relevante. Só o reacionarismo ou o comprometimento de alguns com o pior do nosso passado pode levar a crer que tudo isso é secundário. O golpe de 1964 foi precipitado por uma “vaca fardada”. Foi assim que se caracterizou o próprio general Mourão Filho. Levou o Brasil para o brejo. As fundamentais “reformas de base”, estopim da queda de Jango, foram atrasadas em mais de 30 anos. Algumas ainda não foram completadas. Um desastre.

Na véspera do primeiro jogo da Copa do Mundo, lembraremos de Leonel Brizola nos dez anos da sua morte. Espírito de fogo, impetuoso, vibrante e determinado, Brizola surpreendeu o Brasil várias vezes. Como governador do Rio Grande do Sul, encampou duas empresas estrangeiras parasitas – energia elétrica e telefones – e, em 1961, estragou a festa dos ministros militares que, depois da renúncia do maluco Jânio Quadros, tentavam impedir Jango de assumir o poder que lhe cabia. A direita culpa Brizola pelo desatino que ela mesma cometeu em 1964. É uma maneira de se justificar e de fazer crer que as “reformas de base” eram apenas uma loucura extremista.

Por fim, em 24 de agosto de 2014, viveremos os 60 anos do suicídio de Getúlio Vargas, o político mais importante da história brasileira. O Rio Grande do Sul produziu os três líderes políticos mais importantes do Brasil do século passado: Getúlio, aquele que foi e fez, Jango, aquele que foi sem poder sem plenamente, e Brizola, aquele que poderia ter sido. Ninguém apostou mais em educação e construiu mais escolas do que ele. Esses homens tiveram também seus muitos defeitos. Getúlio foi ditador de 1937 a 1945. Brizola teve suas contradições. Jango nem sempre foi ágil.

As qualidades, porém, superam facilmente as limitações. Jango salvou o Brasil de duas guerras civis. Brizola nunca se entregou.

Jango, ao cair, tinha 76% de aprovação popular segundo pesquisa do IBOPE.

Foi derrubado pela mídia lacerdinha, da qual o lacerdismo atual herdou os procedimentos, manipulações e sofismas – com seus cães de guarda, que vão de Reinaldo Azevedo a Luís Felipe Pondé, passando por Demétrio Magnoli, Olavo de Carvalho e uma série de sabujos desdentados.

Getúlio era o mistério. Jango, a ponderação. Brizola, uma labareda. Em tempos de futebol, poderemos fazer analogias: Getúlio, Jango e Brizola foram Pelé, Tostão e Rivelino? Ou Brizola foi um endiabrado Garrincha? Imagino a fúria dos retranqueiros, que ainda elogiam os volantes fardados que seguraram o Brasil durante 25 anos, com essas comparações ofensivas. Uau!

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