Vacina para quem?
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Vacina para quem?

Americanos em primeiro lugar?

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Quem vai chegar primeiro na tão sonhada vacina contra o coronavírus?

E quem vai ser vacinado primeiro?

Cada desastre produz um instantâneo do comportamento humano. Em geral, o mesmo reaparece sob diferentes formas. O escritor francês Michel Houellebecq afirma que depois da pandemia seremos os mesmos, só que um pouco pior. Nada de chocante para quem conhece o pessimismo irônico ácido do autor de “Partículas elementares” e “Extensão do domínio da luta”. As pandemias do passado não nos tornaram, infelizmente, melhores por muito tempo. No meio da tragédia, surgem os golpistas, os quem vendem respiradores estragados, os que desviam recursos públicos escassos e os que veem no caos uma oportunidade de levar vantagem. O poder da grana não se constrange e dá as cartas.

A vacina contra o coronavírus ainda nem foi descoberta, mas já teria dono. Os primeiros milhões de doses caberiam a quem? Elementar, meu caro leitor, aos Estados Unidos da América. Ainda que desenvolvidas num laboratório francês. A informação está causando rebuliço na terra dos bravos gauleses. Qual seria a explicação? Dinheiro. Quem paga a conta, ou grande parte dela, quer largar na frente. Vejamos melhor. Paul Hudson, diretor-geral do laboratório francês Sanofi, que desenvolve um projeto de vacina em parceria com o britânico GlaxoSmithKline, declarou que, em função de um financiamento americano de 30 milhões de dólares, os primeiros benefícios irão ao investidor.

Hudson falou e tomou o troco na hora. Segundo o jornal “Le Figaro”, a secretária de Estado para a economia Agnès Pannier-Runacher considerou essa possibilidade indigna. “Um privilégio de natureza pecuniária seria inaceitável”, disse. Na sequência, ela apertou a direção do Sanofi, que teve de recuar. A União Europeia avisou que disponibilizará 2.4 bilhões de euros para que laboratórios europeus possam produzir a vacina e colocá-la ao alcance de todos. O argumento dos norte-americanos apresenta-se com tal simplicidade que quase convence: investir para a proteger a sua população. O contra-argumento francês recorre à força do universalismo: somos todos humanos.

Uma pandemia obriga a pensar sobre modelos de organização social e econômica. O que vai predominar: a solidariedade o a competição? No Brasil, o ministro da economia Paulo Guedes, especialista em concorrência máxima e em Estado mínimo, ficou sem função com a explosão do coronavírus, ainda no começo. No software que é o seu cérebro não existe programação em modo cooperação e ajuda mútua. Em consequência, virou figurante nas aparições do governo. Mais triste só a figura do ministro da Saúde, o médico Nelson Teich, desautorizado pelo chefe em matéria de medicamentos, no caso, o uso ou não da famosa cloroquina.

A França está pagando 84% dos salários dos empregados de empresas paralisadas. A Alemanha, 60%. Na França, o valor pode atingir 4.800 euros. Na Itália, 800 euros. Cada país atua conforme as suas possibilidades e seus valores. A guerra da vacina começou. Alguém chegará primeiro. Ainda que por poucos dias. Ou meses? Para presidente da França Emmanuel Macron a vacina não deve obedecer à lei do mercado. Quanto tempo a vacina levará para alcançar os confins da África? Para resolver a questão, os americanos pretender chegar em primeiro lugar nos dois focos da corrida: produzir e consumir a vacina.

Será que os chineses podem surpreender?

Quando todos estiverem vacinados, Bolsonaro ainda está gritando:

– Cloroquina, cloroquina!