Ventos Boric no Chile

Ventos Boric no Chile

Mudança de ciclo

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      Gabriel Boric, 35 anos de idade, é o novo presidente do Chile. O ciclo da extrema direita está expirando na América Latina. Sempre poderá vir outro. Uma simplificação brutal prosperou nas redes sociais nos últimos anos: toda pessoa de esquerda seria favorável a dispositivos autoritários e apoiaria regimes como o cubano e o venezuelano. Nada mais afastado da verdade embora existam em cada esquina esquerdistas apegados a um passado de falsas utopias. Boric não aplaude nem Cuba nem a Venezuela. Faz muito bom. Uma esquerda inteligente e renovada busca inspiração na social-democracia escandinava. Não existe modelo perfeito. Ter de dizer obviedades faz parte da necessária redundância dos processos de comunicação.

      Como diz a sabedoria popular, é para frente que se anda. Um bom futuro nada tem a ver com o neoliberalismo ditatorial de Pinochet nem com o bolivarianismo anacrônico de Hugo Chávez. As técnicas de propaganda de Steve Bannon mandam chamar de comunista todo aquele que ouse defender direitos humanos, proteção ao meio ambiente e um nível de igualdade capaz de ser chamado de humanitário. O Chile apostou tudo no sistema de aposentadorias privadas. É uma catástrofe. Qualquer um que tenha uma previdência privada sabe o que significa condicionar a velhice às oscilações do mercado financeiro. Pode-se ver a inflação passar dos dez por cento ao ano, pagar taxa de administração de um por cento e colher um rendimento entre 1,7% e 2,4% num determinado ano. Ainda poderá ouvir de um expert: quem correu riscos, ganhou mais.

      Ser comunista é se comprometer com o fracasso. O mesmo vale para o neoliberalismo. Fracasso de quem? Da maioria. Uma sociedade complexa requer flexibilidade e segurança, livre iniciativa e ação pública, mercado e Estado, que é a sociedade organizada em aparato público, direitos individuais protegidos e interesses coletivos valorizados, pluralismo, contraditório, liberdade de imprensa e expressão, multipartidarismo, até candidaturas avulsas, respeito a diferenças, diversidade, liberdade religiosa, uma profusão de elementos articulados, para usar uma expressão de Gilberto Freyre em outro contexto, num “equilíbrio de antagonismos”. Ou, para seguir Edgar Morin, articulações de elementos antagônicos e complementares.  

      O economista norte-americano Paul Krugman, que só é comunista na cabeça dos mais fanáticos seguidores de Donald Trump, escreveu outro dia: “O fracasso em aprovar uma agenda social decente condenaria milhões de crianças americanas à má saúde e à baixa renda na idade adulta — porque é isso o que acontece com quem cresce na pobreza. Condenaria outros milhões a tratamento médico inadequado e ruína financeira se adoecerem, porque é isso que acontece quando as pessoas não têm seguro-saúde adequado. Condenaria centenas de milhares, talvez mais, a doenças desnecessárias e morte prematura pela poluição do ar, mesmo sem calcular o risco intensificado de catástrofe climática”.

      Boric poderá não fazer um bom governo. É inexperiente. Mas tem uma perspectiva alvissareira: uma agenda social. Ser comunista em 2022 será uma estupidez. Ser neoliberal, uma irresponsabilidade atroz.

 


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