Virado pra Lua
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Virado pra Lua

Há 50 anos o homem tomava a lua dos namorados

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Há 50 anos, o homem pisou na lua. Meu amigo Edu, em Santana do Livramento, nunca acreditou nisso. Na comemoração dos cinco anos dos pequenos grandes passos humanos no satélite natural da Terra, tínhamos 14, ele me contava, num passeio de charrete, que era tudo mentira. Como sabia? Nunca fiquei sabendo. Para ele, havia muita mentira no mundo. A Terra, afirmava, era plana. A lua, inalcançável. A vida, mistério. Ficávamos horas olhando a lua, especialmente a lua cheia. Eu chegava a ver homens caminhando na sua superfície. Ele ria das minhas fantasias.

      Pisar na lua era uma questão ideológica, parte da polarização dominante na época entre Estados Unidos da América e União Soviética, mais um capítulo da Guerra Fria, uma nota de rodapé no confronto entre capitalismo e comunismo. Antes disso, a lua era dos namorados. De quem é a lua hoje? Em caso de exploração comercial, de venda de lotes, de condomínios, quem tem os direitos de exploração do solo lunar? Se os europeus se apropriaram das terras dos índios, com suas descobertas no final do século XV e no começo do século XVI, por que a lua não seria dos Estados Unidos? Nem população local há para exterminar. Simples.

Não fosse a distância e alguns obstáculos naturais, a relação custo-benefício poderia ser melhor. Não duvido que exista algum projeto de enviar para a lua os refugiados que tentam entrar na Europa. Se depender de Donald Trump, sem dinheiro para muro, mexicanos também poderiam morar na lua. Para colonizar o Novo Mundo, o Velho Mundo abriu suas prisões. Temos antecedentes. Para colonizar a lua, os Estados Unidos estariam dispostos a liberar os prisioneiros de Guantánamo? Ou o marketing dos grandes espaços pode convencer parte dos brasileiros determinados a morar em Portugal a mudar de destino e de perspectiva?

Como, em 1969, não havia televisão lá em casa, só vimos, de fato, o homem pisar na lua numa retrospectiva, seis anos depois, na casa de um vizinho, com celofane na tela para dar colorido. Achei a lua meio avermelhada. Pensei que era Marte. Ou que fosse uma homenagem ao primeiro título nacional do Inter. Na época, havia muita conspiração. Não era teoria. A operação Condor andava matando líderes de esquerda. Um professor de literatura, cujo nome esqueci, me ensinou algo sem qualquer relação com a sua matéria: a melhor maneira de ver a lua seria ouvindo a “Sonata para arpeggione e forte-piano”, de Schubert. Não entendi na hora. Hoje, dou-lhe razão. Arpeggione é um instrumento que caiu em desuso. Meu professor aceitava no seu lugar uma viola da gamba. E a lua? Como um arpeggione, desaparece deixando um rastro de  límpida beleza.

Como fui esquecer o nome de um professor tão inspirado assim? É a vida. Perdi contato com Edu. Estará ele a par do retorno das suas ideias sobre o terraplanismo e a fraude da ida do homem à lua? Terá sido Edu, que abandonou a escola na segunda ou terceira série do então chamado primário, um vanguardista iluminado? Naquele nosso tempo, os professores achavam que isso era puro obscurantismo. Não sabíamos o que essa palavra significava. Tomávamos banho de luar. Ainda vejo homens andando na lua.