Amor sem fim #sqn
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Mariana Diffini lança instigante livro sobre fim de relacionamentos entre mulheres, neste domingo, 17h, com bate-papo, na Aldeia

 

Por Luiz Gonzaga Lopes

 

Posso dizer que sou um privilegiado a cada vez que recebo algum material de divulgação da Nanni Rios, esta resiliente e empreendedora pessoa, que fez da sua Aldeia e da livraria Baleia um ponto de referência da boa literatura e também das mulheres. Nesta semana, recebi o livro "Por Todas as Vezes que Fiz Casa no Peito de uma Mulher", da Mariana Diffini, edição independente da autora com belo projeto gráfico de Laís Dornelles, que reafirma o tema e a importância das obras de autoria lésbica. O livro tem lançamento neste domingo, 27/11, às 17h, na Aldeia (Rua Santana, 252), com a participação das escritoras Natália Borges Polesso, vencedora do Jabuti de Contos e Crônicas e Escolha do Leitor por "Amora" e Daniela Langer, autora de No Inferno é Sempre Assim e Outras Histórias. Bate-papo e sessão de autógrafos de uma obra que me fez mergulhar no tempo em uma década. Já explico. Primeiramente (fora Temer), vamos à sinopse: os contos tratam dos relacionamentos amorosos entre mulheres, mais especificamente dos términos. Ao todo, são 12 histórias com nome de mulher no título, cada um inspirado num signo do zodíaco.

 

Por que então, voltei em uma década no tempo anacrônico da literatura? Há 10 anos, eu preparava os originais do meu primeiro romance "Amor sobre Tela", lançado pela Armazém Digital em 2007, e ao ler os finais, os términos da narradora dos contos, com Bruna, Caroline, Paula, Ana, Florença e outras mais acabei mergulhando na minha própria obra, de autoria masculina, mas intrigada com os finais e as impossibilidades do amor romântico por um tempo não relógico, mas o tempo do ser, uma coisa meio Heidegger, com o perdão da citação deste filósofo meio contestado por suas ideias um pouco mais radicais. Mas vamos ao que eu quero falar. Separei o primeiro parágrafo do meu livro para começar a falar do de Mariana Diffini e o quanto ele me tocou, me emocionou e me fez pensar em tratar novamente do tema, pois estou em processo de aparte dos meus amores até então. Aí vai o início de Amor sobre Tela, agora que escrevo ouvindo Billie Holiday:

 

"Depois que as histórias de amor acabam é que os envolvidos
passam a perceber a validade de cada detalhe, a importância de
cada palavra não - dita, de cada angústia emudecida pela dúvida
do desagrado, do inoportuno ante as dificuldades de se manter uma
história a dois. O par é sempre penoso de se formar e facílimo de
se destruir. Quem não tiver sofrido uma história de amor, que atire
a primeira pedra e quebre este espelho narrealtivo amoroso em
milhares de cacos. O lodo da discórdia, esta comandante tirana,
apartando um casal para cantos opostos do ringue. O gongo soando
em cada grito ou gesto brusco. Poucos podem entender sem viver
uma briga de e por amor. E quem já viveu, sabe do que estou
falando. Após o fim decretado ou o finalmente realizado, apenas
o silêncio é o cozinheiro mexendo levemente na panela de ferro
esperando aquela fervura toda se dissipar e o resultado ser um
caldo pessoal de solidão e de consolo nos amigos e parentes. Cada
um consigo e só sós conseguem".

 

Não é nenhum grande início e o livro chegou aos 300 exemplares, de forma independente e não vingou, muito por causa da minha negação atual a ele. Mas vamos ao "Por Todas as Vezes que fiz Casa no Peito de uma Mulher". Antes de lê-lo, havia visto duas postagens de amigas que respeito muito na literatura e no jornalismo cultural: Julia Dantas e Priscila Pasko e ambas diziam que era o melhor título de livro do ano disparado. Mariana já começa antes dos doze contos nos preparando para a emoção do descolar, despegar espanhol, enfim dos cacos do espelho do amor:

 

"Aprendi a suspirar todos os dias. A dor passa e o farol aponta em frente. Parece bobagem aos olhos dos outros, e às vezes até parece bobagem para mim. Seguir esta estrada até o fim, e reaprender todos os dias a respirar. Não perco as batalhas, e todo dia é sempre meu recomeço. Aceito a chuva.

 

Há tantas metáforas belas sobre o amor com fim, o endwithlove (neologismo meu), mas Mariana definitivamente ganha a corrida no páreo do crer no amor que seja infinito enquanto dure, à maneira de Vinicius ou de Roland Barthes. Vamos então aos inícios. Após citar um trecho da canção "A Noite", de Tiê, do qual destaco a frase: "Nem a maldade do tempo consegue me afastar de você", a autora introduz a distância de Julya, o primeiro amor zodiacal do livro:

 

"Se não soube te manter perto...
Se não pude te deixar partir...
Te olho de longe outra vez. Perdi o jeito de me aproximar."

 

A perda está estabelecida entre reminiscências e embriaguez, no existencialismo do que fazer a partir do momento em que a narradora do conto não soube deixar Julya partir, mas também não conseguiu mantê-la por perto. A terceira que foi embora, Laura. Todas elas acabam indo embora. Quem narra, já dá a real: "sei que é chato pra caralho conviver comigo". Ela já deixa a porta aberta para quem quer sair. Apesar da convivência difícil, a narradora é toda entrega, depois do primeiro passo, é a amante, a outra que guia os seus passos: "Eu fiz casa nesta saudade, mas quem desenhou o projeto desse lar foi você". É possível não se apaixonar por esta frase e por este momento. O amor está acima dos gêneros, está acima das constelações, tangê-lo por alguns momentos é a grande chave, mas os contos seguem e chegamos até Caroline, um amor que vai minguando como a lua e quem deveria segurar mais um pouco a pessoa pela mão acaba titubeando:

 

"Nesta hora eu me levantei e pensei em segurar sua mão em um último gesto de afeto antes da partida, mas eu realmente não podia. Meu silêncio é meu melhor amigo, meu pior inimigo, e as palavras emudecem antes de virar barulho. Virei as costas e enquanto ouvia seus soluços minguando no meu ouvido eu pensei que eu entendia tudo".

 

Ninguém entende tudo e a pessoa que não segurou a mão e deixou os soluços minguarem percebe o seu vazio, o buraco negro no coração, mas não importa, seguir em frente, como a luz do farol, parece ser o melhor a se fazer. Podia aqui falar de todas as histórias, mas aí não daria o gostinho ao leitor de descobrir por si mesmo. Falo um pouco do capítulo Paula pela bela maneira de falar de alguém que partiu pelos elementais Ar, Terra, Fogo e Água:

 

"Existem quatro maneiras diferentes de se entrar no corpo de alguém. Quatro caminhos onde seus passos podem se perder ou se encontrar. Quatro gestos, quatro jeitos, quatro abismos onde os corpos podem cair. E em queda-livre ter seus gestos ditados pelo ar".

 

Os elementos nos colocam numa intensidade múltipla e transcendental para o gran finale do conto, uma quadrinha bela e simples, cuja rima é na conjugação do verbo no infinitivo e que nos dá uma ideia de como lidar com estes elementos na hora em que o barco amoroso parte, no mar da saudade sempiterna:

 

"Joga no ar para quem quiser pegar
Planta na terra para quem quiser cuidar
Atiça no fogo para quem quiser queimar
Solta livre na água, pra quem deixá-la navegar"

 

O capítulo final é quase igual ao título do livro: "Sobre Todas as Vezes que fiz Casa no Peito de uma Mulher". São versos de luta contra o fim, de dor e de consciência plena do inicio e do fim, das coxas entrelaçadas, da liberdade, da entrega e do remorso, terminando assim este belo libelo que faz a autoria lésbica de Safo de Lesbos a Virgínia Woolf, o amor acima dos gêneros, prevalecer e ser entendido por este século XXI e pelos leitores, muitos deles que estarão na Aldeia para aprender e trocar ideias sobre amar e partir.

Boa leitura a todos!!!
Sobre a autora:
“Mariana Diffini, 26 anos, lésbica. Moro em Porto Alegre. Cursei Letras na UFRGS, mas prefiro botecos. Escrevo porque preciso e desde que me conheço por gente. Estou lançando o meu primeiro livro. 12 contos, cada um pra um signo do zodíaco e cada um com o nome de uma mulher que viveu comigo no real ou no incorpóreo. Mas o livro também é luta, que busca uma visibilidade, um canto, um espaço pra que seja possível amar, pra que seja possível falar de mulheres sem heteronormatividade, barreiras ou censuras."
Sobre o livro:
“Por todas as vezes que fiz casa no peito de uma mulher”
Gênero: conto
Número de páginas: 82 páginas
Ano: 2016 – 1ª edição, publicação independente
Preço: R$15 (em dinheiro ou cartões de crédito e débito Master e Visa)
Serviço:
Lançamento do livro “Por todas as vezes que fiz casa no peito de uma mulher” de Mariana Diffini
Bate-papo com Mariana Diffini, Daniela Langer, Natália Borges Polesso e mediação de Nanni Rios
Quando: 27 de novembro, a partir das 17h
Onde: Aldeia (Rua Santana 252)
Entrada: gratuita!
Produção:
Livraria Baleia (Rua Santana, 252)
Mais informações: 51 30849044 ou aldeia252@gmail.com