Da terra de Quiroga às letras rio-grandenses
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Da terra de Quiroga às letras rio-grandenses

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Por Luiz Gonzaga Lopes


Professor uruguaio radicado em Porto Alegre, Ruben Daniel Castiglioni, toma posse nesta quinta na cadeira 31 da ARL




Do país que produziu nomes como Horário Quiroga, Mario Benedetti e Mario Arregui, Ruben Daniel Mendez Castiglioni, natural de Montevidéu, é um abnegado pela literatura. Professor do Instituto de Letras da Ufrgs e autor de tese e artigos científicos sobre o Surrealismo na América do Sul, a partir do argentino Aldo Pellegrini, Ruben está ingressando na cadeira 31 da Academia Rio-Grandense de Letras, em solenidade nesta quinta-feira, dia 30, às 18h, no auditório do 3º andar do Palácio Histórico do Ministério Público (Praça Marechal Deodoro ou da Matriz, número 110). A cadeira tem como patrono Paulino Azurenha e como antecessor,  Itálico Marcon. O novo acadêmico será apresentado pelo paraninfo José Carlos Laitano. Saiba um pouco mais sobre quem é e o que pensa Ruben Daniel Castiglioni.


Livros A+ - Qual a significação para você da entrada para a Academia Rio-Grandense de Letras na cadeira 31, cujo patrono é Paulino Azurenha?

Ruben - Vou parafrasear o irmão Elvo Clemente: "Pertencer à Academia não é apenas uma distinção, uma valorização dos meus trabalhos, mas essencialmente uma missão de levar adiante o amor às letras, principalmente às letras da Língua Portuguesa". É isso, um reconhecimento, uma valorização, uma honra e um compromisso. Certamente há muitos colegas que também mereceriam ocupar essa cadeira.

O fato de ter nascido em Montevidéu e ter sido convidado é muito significativo para mim, porque demonstra o quanto fui bem recebido e integrado a este país e a este Estado. Como foi publicado pelo Correio do Povo na edição 26 de novembro de 1901: "a agremiação seria acessível não só aos rio-grandenses, mas também aos brasileiros natos ou naturalizados que, por sua dedicação às letras sulinas, demonstrada em atos ou obras, merecessem insígnia acadêmica".

Enfim, o acolhimento do povo gaúcho e da Academia me honra e emociona.


Livros A+ - Tu poderias nos dar uma prévia do que será o teu discurso de posse?

Ruben - Tenho que seguir um padrão obrigatório que está no Estatuto da ARL: o acadêmico deve pronunciar um discurso em que se ocupe da vida e da obra de seu antecessor e do Patrono da cadeira. No caso, Paulino Azurenha e Itálico Marcon, duas figuras importantes. Também falarei um pouco da literatura nos dias de hoje e da grata surpresa do convite para ocupar um lugar na ARL.


Livros A+ - Como pretendes contribuir pela difusão das letras na ARL e fora dela?

Ruben - Vou continuar fazendo o que faço: dar aulas, conferências, organizar seminários, publicações, inclusive já estou organizando, junto com o escritor José Carlos Laitano, a próxima revista da ARL. A ideia é a de resgatar a memória dos escritores do RS tornando suas obras mais conhecidas, coletar dados biográficos de autores rio-grandenses, auxiliar na publicação de obras, manter intercâmbio cultural, tudo isso com projetos ligados à UFRGS.


Livros A+ - Tu representas outra academia, a Ufrgs. Qual o ponto de conexão entre a Letras da Universidade e o trabalho da ARL?

Ruben - O ponto de conexão é a dedicação às letras, e certamente a ARL e o Instituto de Letras estarão ainda mais conectados: nossa diretora, a professora e escritora Jane Tutikian, faz parte da ARL; a professora Kathrin Rosenfield, que também atua no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRGS, vai ingressar na ARL e já trouxe a exposição sobre a obra de Thomas Bernhard. Atualmente estamos pensamos em outras atividades, por exemplo, um seminário sobre autores gaúchos ligados à ARL e um livro sobre sua história.


Livros A+ - Entre a tua atividade de pesquisa em literatura, destacam-se o trabalho de interface entre literatura e direito e a análise e recepção dos surrealistas na Espanha e Argentina. Conte-nos um pouco sobre esta produção acadêmica?

Ruben - O trabalho de recepção do surrealismo está focado em Aldo Pellegrini, que em 1926 fundou um grupo surrealista em Buenos Aires, o primeiro fora da França. O surrealismo surgiu em 1924 e, pouco tempo depois, a Argentina já tinha seu grupo capitaneado por esse poeta "sensível, inteligente e fervoroso", como disse Octavio Paz.

Também pesquisamos a produção literária e recepção dos artistas plásticos e escritores Eugenio Granell, Salvador Dalí e Pablo Picasso no período compreendido entre 1924 (momento da aparição do Manifesto do surrealismo na França) e 1966 (ano da dissolução do movimento, também na França), procurando encontrar respostas acerca da recepção de seus escritos e recuperar a importância desta relevante fatia de expressão dos autores, comprovando a sua função no processo de compreensão de suas obras e de suas posteriores realizações.

O curioso é que muitos desconhecem essa faceta de escritor de Dalí e de Picasso. Por exemplo: Dalí escreveu, aos 17 anos, o romance Tardes de Verão, e não parou mais, publicando poemas, críticas e romances ao longo de sua vida.  O livro Diario de un genio é leitura obrigatória. Picasso também tem uma boa produção. Outro escritor genial é Luis Buñuel. Todos eles têm uma forte ligação com o surrealismo. Provavelmente o menos surrealista dos três foi Salvador Dalí, e geralmente se pensa o contrário...

Minha formação em Direito também me fez percorrer o caminho de estudar as possibilidades de cruzamento entre estes dois saberes, buscando articular os estudos de direito na literatura, direito como literatura e direito da literatura; inclusive temos um acordo assinado entre a UFRGS e a AJURIS, e já trabalhamos juntos na publicação de 3 revistas, dois livros e na organização de eventos. A ideia principal é a de promover o diálogo entre os profissionais das Letras e do Direito, procurando discutir temas afins e dar relevância aos pontos comuns destas duas áreas que são mais próximas do que se supõe.