Gonçalo ganhou o emprego
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Gonçalo ganhou o emprego

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Por Luiz Gonzaga Lopes

O português Gonçalo M. Tavares foi o destaque desta terça-feira na Feira do Livro

A mesa Iluminando Palavras com Gonçalo M. Tavares realizada nesta terça-feira à noite no Auditório Barbosa Lessa do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo foi um exercício de pensar a literatura, de conhecer ou reconhecer as ideais do autor de Jerusalém, Matteo Perdeu o Emprego, A Máquina de Joseph Walser ou da série O Bairro.

Durante quase uma hora e meia, sem contar os autógrafos posteriores, Gonçalo nos brindou com o melhor do seu pensamento e ganhou o emprego no nosso departamento de reflexão sobre literatura, sobre a arte e outras coisas mais, em conversa com o autor gaúcho e leitor de Gonçalo, Reginaldo Pujol Filho.

Para homenagear o efeito dominó da sua literatura em Matteo Perdeu o Emprego (Foz Editora, 2013), selecionamos 25 frases de Gonçalo, como as 25 histórias do livro e grafamos em letra maiúscula a sequência alfabética. Fiquem agora com as ideias de Gonçalo M. Tavares nesta passagem pela 60ª Feira do Livro de Porto Alegre.

 

A palavra não é o que dá continuidade a uma conversa.

Porto Alegre é uma cidade muito literária assim como BUENOS AIRES e Cidade do México. 

Escrever tem muito a ver inicialmente COM os nãos. Escrever não é uma atividade normal, é uma forma de estar vivo, de ser mortal, de dizer o que vou fazer enquanto não morro.

Eu gosto da ideia da DISCORDÂNCIA. Sou admirador de um sim forte, um sim com letras grandes. Escrever tem algo a ver com o modo de vida. Gosto imenso de café, se não o tomo sinto a necessidade orgânica, como sinto de escrever.

Mar de gente E amor infinito são lugares comuns. Não É culpa das palavras. Amor E infinito; mar E gente são belas palavras, mas prefiro vê-las EM outros casamentos verbais.

Amor, religião e oração têm uma suspensão do lugar comum, pois quando digo amo-te e repito é como uma FUNDAÇÃO, uma inauguração.

O que me irrita no cinema é que ele é totalmente redundante. A música acompanha a cena. Prefiro o que faz GODARD (Jean-Luc) que parte imagem e som. Uma imagem aparece ao som da cena anterior e assim por diante.

O ideal da palavra é que transformasse numa espécie de tela transparente. A boa palavra não é vista, que não precise alterar ITINERÁRIO dos olHOS na leitura.



Quando vemos um quadro JÁ vamos direto ao centro, não o lemos por cima desde o canto superior esquerdo. Gosto de escrever os livros para que as pessoas avancem ao centro.

Gosto dos LIVROS com o qual podemos mudar de vida a cada frase, a cada esquina e não daqueles sequenciais, da unidade mínima, do essencial a cada frase. Em Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector dizia: "De qualquer luta ou descanso, levantarei forte e bela como um cavalo novo". Estas são frases para mudar de vida.

Em MATTEO Perdeu o Emprego a narrativa é como um dominó, a sequência é pela ordem alfabética e não pelos acontecimentos. As personagens entram no livro por A, B ou C.

Uma entrada literária faz tanto sentido quanto uma entrada cronológica. Dá para entrar NO meio.

Eu fiz O POSFÁCIO do livro em forma de ensaio para pensar sobre o livro, para ser lido de forma reflexiva. Em uma obra de arte, num livro, o fim não é o fim e sim o início.

Eu vejo as cidades como máquinas de distribuir pessoas. QUANDO saio do metrô e vejo as pessoas se dividindo pela cidade é como se a cidade nos conduzisse até chegarmos a nosso espaço próprio, a casa, o quarto ou a cama.



A literatura vive do RESTO, do quociente, do que sobra.

Não gosto da beleza que nos imobiliza, mas de SER exato e ambíguo, da beleza ambígua que deixa espaço para a gente continuar.

No meu livro Animalescos, que ainda não saiu cá no Brasil, eu reflito e se pudéssemos escrever como animais e se um animal escrevesse. Como disse Roland Barthes, escrever é contra a esTRUTURA da língua.

Precisamos escrever na quarta ou na quinta pessoa do plural, descobrir novas formas de conjugação, ULTRAPASSARMOS as linhas da linguagem.

Gosto muito do Brasil, mas uma coisa que não me acostumo a VER é como pode haver miúdos (meninos) na rua, como o Estado não se ocupa disto. Em Portugal, na Espanha e na Itália, a segurança social já resolveria isto.

O corpo é mais interessante do que o alfabeto, é mais eXATO. 

A literatura pode ser tanto encantatória como desencantar.

 

Os autores que me agradam são aqueles que me permitem conhecer melhor o BICHO humano.

No meu livro "Os Velhos Também Querem Viver", eu remeto ao texto teatral Alceste, de Eurípides, para falar da luta entre gerações que está forte na Europa, pois é uma vida por uma vida, como no texto grego, mas os jovens são CONTRA o pagamento de reformas (aposentadorias), como se quisessem e tivessem vergonha de dizer que querem que os velhos morram.