“O tradutor não deve impor restrições ao texto”
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“O tradutor não deve impor restrições ao texto”

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Por Luiz Gonzaga Lopes

Paulo Henriques Britto fala sobre o Dia da Tradução, a visibilidade e a evolução do ofício e dos Estudos de Tradução em entrevista

Paulo Henriques Britto é poeta, tradutor e professor de Estudos de Tradução na PUC-Rio. Nasceu no Rio de Janeiro em 12 de dezembro de 1951. Aos 63 anos, já traduziu do inglês para o português mais de cem livros, entre eles obras de William Faulkner, Elizabeth Bishop, Lord Byron, John Updike, Thomas Pynchon,  Charles Dickens. V.S. Naipaul, Philip Roth, Don DeLillo e Paul Auster. Uma das suas mais recentes traduções é "Diário de Inverno", do nova-iorquino Paul Auster, para a Companhia das Letras. Ele estreou como poeta em 1982, com "Liturgia da Matéria". Após outros dois livros de poesia, lançou "Macau" (2003), com o qual recebeu o prêmio Portugal Telecom de Literatura. Em 2004, lançou o livro de contos Paraísos Artificiais e em 2007 lançou "Tarde", seguido de "Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua", em 2009, e "Formas do Nada", em 2012.

Pelo trabalho de tradução, Paulo Henriques já recebeu o Prêmio Paulo Rónai na categoria Tradução de Autores Estrangeiros para o Português da obra "A mecânica das águas", de E. L. Doctorow, concedido pela Fundação Biblioteca Nacional, em 20 de dezembro de 1995. Um dos principais lançamentos do Brasil nos últimos dois anos por uma editora não acadêmica sobre Estudos de Tradução foi o seu livro "A Tradução Literária", de 2012. Analisando o tema à luz de teóricos antecessores como Mary Snell-Hornby, Lawrence Venuti e Rosemary Arrojo, o autor introduz o tema com parágrafos como este: "Como a visão de senso comum a respeito do que seja o trabalho de tradução é profundamente equivocada, toda vez que um tradutor empreende a tarefa de dar ao público a ideia do seu ofício, ele é obrigado a começar por corrigir os mal-entendidos. É preciso sempre afirmar o caráter não trivial do trabalho de tradução, elucidar a verdadeira natureza da atividade, enfatizar as dificuldades e o que há de criativo e intelectualmente instigante nessa profissão, e negar os velhos chavões preconceituosos. Traduzir - principalmente traduzir um texto de valor literário - nada tem de mecânico: é um trabalho criativo. O tradutor não é necessariamente um traidor; e não é verdade que as traduções ou bem são belas ou bem são fiéis; beleza e fidelidade são perfeitamente compatíveis".
Para lembrar o Dia Internacional da Tradução, neste 30 de setembro, procuramos Paulo Henriques para responder algumas perguntas sobre o tema. Como estava em viagem à Europa e com o tempo muito escasso, ele respondeu metade das perguntas. Aí está a entrevista com Paulo Henriques Britto.



Livros A+ - Quais as principais lutas dos tradutores na atualidade para dar    visibilidade ao tradutor. Existem algumas campanhas como a da Abrates pelo  tradutor visível. O que achas desta luta?

Paulo Henriques Britto - A visibilidade é uma causa importante. Os suplementos literários    deviam dar um mínimo de destaque para o tradutor literário, e de modo geral não o fazem.        Mas também seria bom se todas as editoras pagassem aos tradutores os direitos autorais que  lhes são devidos.

 

Livros A+ - Em teu livro "A Tradução Literária", dizes: "Assim, sustento que o tradutor tem a obrigação de se esforçar ao máximo para aproximar-se tanto quanto possível da inatingível meta de fidelidade, e que ele não tem o direito de desviar-se desses caminho por outros motivos". A partir dessa afirmativa, qual o respeito que é necessário ao texto por parte de um tradutor para evitar a traição (ser um traditore) ou a infidelidade, trabalhar a fidelidade e a equivalência no sistema linguístico para o qual está sendo vertido o texto?

Paulo Henriques - A pergunta exigiria uma resposta longa demais; vou tentar resumir minha posição. O tradutor tem de fazer um esforço consciente de construir uma leitura do texto que seja coerente com o que ele sabe sobre o autor, a cultura de origem etc.; ele não deve impor ao texto de modo consciente restrições de ordem ideológica. Para dar dois exemplos, o tradutor não tem o direito de censurar o original com base em seus padrões, religiosos etc., nem de tentar melhorar o estilo do autor segundo seus próprios padrões do que é um bom estilo. Ele deve também reconstruir o original no seu idioma seguindo a máxima de Meschonnic: traduzir o não-marcado pelo não-marcado, e o marcado pelo marcado. Isto é: aquilo que no original é padrão, default, deve ser traduzido como algo padrão no idioma e na cultura meta; aquilo que causa alguma estranheza ou dificuldade no original deverá causar um grau semelhante de estranheza ou dificuldade no leitor da cultura meta. Não se deve exotizar o que é perfeitamente natural na cultura fonte, nem tampouco – o que acontece com muita frequência – aparar as arestas e facilitar aquilo que o autor claramente não queria que fosse simples e óbvio.

 

Livros A+ - Como está a evolução do ofício do tradutor e do tema da tradução no Brasil, tanto nas pesquisas sobre tradução, como a construção pelas editoras e a recepção por meio do leitor, crítica e circulação nos meios especializados?

Paulo Henriques - Na academia, as coisas vão bem, no sentido de que a área dos Estudos da Tradução está crescendo, tanto na graduação quanto na pós-graduação. As editoras – e somente algumas, mais sérias – apenas começam a respeitar os direitos autorais do tradutor. Quanto à crítica dos suplementos, como já observei na resposta à primeira pergunta, a situação ainda deixa muito a desejar.